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Territórios esquecidos

Territórios esquecidos

Poucos conhecerão o país de lés a lés tão bem quanto o presidente da República. Os territórios, as suas gentes, as crenças, as amarguras, a solidão, o esquecimento. A necessidade que as pessoas têm de sentir que alguém se preocupa.

E esse é todo um programa, como aqui já se escreveu, que dá a Marcelo Rebelo de Sousa não apenas o poder da magistratura de influência, mas um poder sobre a vida do país que ultrapassa o simbolismo.

É por isso enorme a carga afetiva que carrega a intenção de passar o ano no mais pequeno dos pequenos. A ilha do Corvo é o espelho de um Portugal ensimesmado nos centros urbanos, votado ao abandono nas mais elementares necessidades básicas, de uma caixa multibanco a uma banca para vender jornais, um posto dos correios ou até uma farmácia. Verdade que nada disto falta ali, como ocorre em tantas localidades bem mais próximas das grandes cidades. Mas o sentimento de distância e de ausência é o mesmo.

O ato de Marcelo está longe da caridade arrogante de um político e mais ainda de qualquer aproveitamento populista. É um gesto que tem como destinatários diretos quem governa, quem decide, quem legisla, quem se acomoda com as prebendas do poder.

E é por intuirmos a genuinidade e a força de um presidente da República decidir estar com os pequenos dos mais pequenos, é por o mais alto magistrado da nação saber que a interioridade, as assimetrias regionais e sociais só se combatem com proximidade e decisão, com poder, portanto, que resulta de difícil compreensão a sua batalha contra a criação de regiões administrativas.

A menos que quando Marcelo pede para não porem a carroça à frente dos bois esteja sobretudo a chamar a atenção para a forma como se avança o processo. Porque tem receio que não fique claro que a regionalização não servirá para aumentar a fatura dos contribuintes, mas antes para a diminuir. Porque entende que o que se pretende mesmo é dar maior decisão a quem vive com os problemas.

A regionalização divide o país. O presidente da República não pode, aqui, ser apanhado em fogo cruzado.

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