Opinião

Um abraço, mãe

Há momentos em que não há como não nos despirmos da vulgaridade dos dias cinzentos que vivemos há um ano. Ela tem 84 anos, já tomou a primeira dose da vacina e toma a segunda no dia 1 de abril com a ansiedade dos putos no primeiro dia de aulas.

Na verdade, a ânsia é quase só dela. Os netos pequenos entraram no ramerrão das aulas online, intervaladas às escondidas dos progenitores pela visualização do YouTube ou dos videojogos. Os netos grandes e os filhos ainda acham tudo uma miragem. Entraram no propalado absurdo do "novo normal".

Mais de 365 dias após a notificação dos primeiros casos e quando já assinalamos um ano da primeira vítima mortal em Portugal, há notícias que nos devem fazer respirar. Nos lares, a semana de 8 a 15 de março foi uma das que registaram menos óbitos por covid-19 desde o início da pandemia, com uma redução de 98% no último mês.

Os números traduzem vidas salvas e mostram que a vacinação é não só a primeira como a última esperança para reconquistarmos os dias perdidos, mesmo que as dúvidas que possam persistir sobre as vacinas minem a confiança.

Os lares foram o nosso primeiro embate com o horror e os chamados "danos colaterais", para quem gosta da linguagem bélica, como o abandono, a solidão, a dor, o vírus como justificação para a falta de vergonha humana com milhares deixados de repente sem chão pelos familiares. Salvar os velhos é hoje justamente um sinal muito objetivo de esperança para o futuro.

A contenção da pandemia é, agora, o primeiro passo para podermos passar à tarefa seguinte, a tão falada reconstrução. Dos afetos e das relações que nos permitimos cortar; da proteção dos mais vulneráveis, os que já não conseguem esconder as dificuldades, e todos os outros que estão a perder o emprego e as condições dignas de vida. Este é o momento de desviar o olhar da vertente estritamente sanitária e de começar a olhar para os dramas sociais, as dificuldades das empresas, a reativação da economia.

Mas antes de tudo temos os abraços. Sem recuperarmos os laços perdidos, como aqui já se escreveu, este será apenas o momento dos oportunistas das oportunidades da crise.

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*Diretor-Geral Editorial

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