A ABRIR

Um presidente de luvas

Um presidente de luvas

A imagem de Marcelo Rebelo de Sousa de máscara e luvas cirúrgicas na ação de sensibilização do Conselho Nacional da Juventude deve servir-nos de alerta para os tempos contraditórios e bipolares em que vivemos, povoados pelo medo, o descuido, a falta de cuidado com os outros, a necessidade de "recuperar" a normalidade, sair mas ficar em casa.

São dias passados entre a euforia do anúncio da realização da Liga dos Campeões, ao aumento de casos da covid-19 na Grande Lisboa a partir dos bairros mais pobres ou dos trabalhadores precários a viverem em camaratas, às festas de jovens a quem é urgente explicar o que é difícil de entender.

A forte crise económica que estamos a atravessar acrescenta o dilema de não querermos limitar nem sermos limitados, mas controlar. O que coloca Governo, Presidência da República, Oposição e peritos perante a necessidade de transmitir mensagens de confiança com números piores do que em determinados momentos de evolução da pandemia.

Se essa mensagem tem fundamento numa fase em que os surtos estão identificados e a capacidade de resposta hospitalar controlada, ela esbarra na perceção - interna e externa - de risco acrescido. E contra as perceções a lógica pode muito pouco.

Mas o pedido do presidente da República às gerações mais novas para ajudarem nesta fase, dando o exemplo, não se juntando em festas ou em grupos, deve convocar-nos sobretudo a olhar para a sociedade que estamos a construir, desfeita de solidariedades e assente nas críticas ocas de quem tem rendimentos garantidos.

É cada um de nós que tem a obrigação de, nas interações sociais, se responsabilizar individual e coletivamente para minimizar riscos. Pode parecer um discurso de sacristia, mas não há outra forma de o dizer e fazer. Ou voltaremos aos tempos ainda irreais que acabamos de viver, sufocados pelo isolamento, separando laços familiares e de amizade, condenando os velhos à solidão. E esses não têm tempo.

Diretor do "Jornal de Notícias"

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