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Opinião

Violência banal

Há palavras que, por muito que as escolhamos, não encurtam os abismos dos contextos. Antes os cavam. E desculpabilizam. Motivação é uma delas. No contexto de violência mais ainda. São motivações diferentes aquelas que levaram dois irmãos a espancarem um jovem em Coimbra. E quem mais se aproximou. Em plena luz do dia. À vista de todos. Diferentes das imagens de violência praticadas por seguranças da discoteca Urban Beach, em Lisboa, sobre dois jovens.

Motivações diferentes mas com a mesma marca da insanidade, que não é desculpabilizável com outros contextos: os da desigualdade, da anomia, do controlo ou descontrolo social, o desemprego, a pobreza, o meio. É tudo bem mais simples e tem só que ver com a relação entre poder, disciplina e punição. Que é o que mais falta nas mais variadas vezes.

A verdade é que às imagens de violência da Urban Beach, que circularam a toda a velocidade, sucederam-se reações e medidas políticas. O Governo determinou o inusitado encerramento da discoteca em plena madrugada e uma ação de fiscalização à empresa de segurança. A PSP, que na noite do sucedido foi chamada ao local, confirmou três detenções ao longo do dia de ontem. O presidente da Câmara de Lisboa fez uma declaração pública. O PSD e o CDS-PP requereram, na Assembleia Municipal de Lisboa, reuniões extraordinárias urgentes. O Bloco de Esquerda exigiu o encerramento. A procuradora-geral da República, Joana Marques Vidal, defendeu que "não pode haver qualquer tipo de complacência" para os atos de violência cometidos e prometeu uma investigação rápida. O presidente da República considerou, sem comentar casos concretos, que a violação do direito à integridade pessoal física e psíquica merece "uma censura agravada".

O caso justifica esta reação pronta? Sem dúvida. Mas também merece que nos questionemos sobre o que teria acontecido se não houvesse imagens. Ou se permanecessem sem vir a público. Haveria capacidade da PSP para investigar rapidamente e proceder igualmente às detenções? Haveria, dado o total de 38 queixas acumuladas, só este ano, contra a discoteca, medidas tomadas no sentido do encerramento? Não podemos com segurança responder, mas não deixa de ser inquietante imaginar que outras agressões ficam impunes ou quantas acabarão por arrastar-se em longos processos, longe do escrutínio e dos comentários em praça pública.

O Relatório Anual de Segurança Interna de 2016 alertava para a existência de grupos organizados infiltrados nas empresas de segurança privada, sobretudo nos negócios da noite. Seria bom que a PSP esclarecesse de que forma teve esse alerta em conta ou que medidas de fiscalização têm sido tomadas. Esse esclarecimento é essencial para que confiemos que o trabalho das autoridades segue o seu caminho, com ou sem pressão mediática. Sem essa garantia, acabamos a confiar mais na força das redes do que na das polícias.

E precisamos de confiar. Está escrito e reescrito. Mas convém repetir. A contenção da violência foi uma das maiores conquistas das sociedades modernas. Não devemos é dar por adquirido uma paz tão frágil.

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*DIRETOR-EXECUTIVO

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