Opinião

Viver na corda bamba

"Não podemos separar famílias no Natal como fizemos na Páscoa". "Se é preciso repensar o Natal em família, repensa-se o Natal". "Parar o país teve um custo enorme. Foi horrível. Destruiu milhares de postos de trabalho". "Não podemos voltar a recorrer ao confinamento". "Não posso excluir que a realidade imponha um novo confinamento".

Talvez somadas assim, sem datas e nomes, as frases soem confusas e contraditórias. Porque o são efetivamente. Todas da autoria do presidente da República e do primeiro-ministro, mostram a dificuldade que o poder político tem sentido em responder à pandemia. Aqui como na Europa, onde são igualmente evidentes os sinais de desorientação de governantes face ao avanço imparável dos números de infetados, doentes internados e mortes.

Custa a entender, ainda assim, a dificuldade em definir alguma coerência na estratégia e em evitar a tentação de cair no catastrofismo. Não faltam razões para alguma serenidade. Conhecemos o novo coronavírus muito melhor do que há meio ano, o tempo médio de internamento dos doentes caiu para metade, há terapêuticas a mostrar eficácia, há avanços na evidência científica sobre o tempo de incubação, transmissão e formas de contágio.

Os números crescentes dão motivos para preocupação? Sem dúvida. E é a montante, no controlo dos contactos, que tem de ser colocado todo o esforço das equipas médicas, porque só assim se quebram cadeias de transmissão e se evita a sobrecarga do sistema de saúde. É preciso investir na prevenção, na minimização de contactos não essenciais, na intervenção adequada junto de grupos que se têm mostrado mais expostos à doença. Há muito a fazer, e medidas mais restritivas a aplicar para retirar as pessoas das ruas, sem que a resposta seja o confinamento.

Porque sobre ele, voltando às frases que de tão evidentes dizem tudo, há uma que marca a semana e os governantes devem repetir para si próprios as vezes que forem precisas, antes de tomarem decisões. "Os confinamentos têm uma consequência que nunca devemos minorar: faz os pobres ficarem ainda mais pobres", alertou David Nabarro, especialista da Organização Mundial de Saúde para a Covid-19 na Europa. Este sábado assinalou-se o Dia para a Erradicação da Pobreza. Não há abanão social mais imprescindível do que lembrar a todo o momento quem vive na corda bamba.

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