Opinião

Plano ou planos

Ainda guardo os históricos acetatos com que iniciei, em 1997, as funções docentes na Universidade do Porto. Históricos pela forma e pelo conteúdo.

Pela forma, porque era a moderna tecnologia de então, utilizada com empenho para aulas mais cativantes. Pelo conteúdo, porque a sociedade mudou significativamente.

Nessas aulas de Sociologia do Desenvolvimento tratava-se das dinâmicas e dos modelos de desenvolvimento europeu e português. Lá apareciam o Alentejo e a RA dos Açores como os territórios da cauda do "progresso", uma posição que parecia cristalizada pelo passado e irremediável no futuro.

Hoje, com os dados atuais e as tendências socioeconómicas recentes (e já não no acetato, mas no slide), a Região Norte caiu nos lugares que ninguém gosta, sendo ultrapassada pelo Alentejo e pelos Açores na maioria dos indicadores.

Trabalhamos muito, mas ganhamos pouco. Produzimos muito, mas retemos pouco. Discursamos muito, mas congregamos pouco. Falamos da região e tratamos do talhão. Até pensamos juntos, mas acabamos a trabalhar isoladamente. E, sobretudo, cogitamos o futuro, mas estamos focados na lufa-lufa do quotidiano.

Vem isto a propósito de António Costa Silva, a escolha do primeiro-ministro para desenhar o plano nacional de recuperação económica. Não podia ser uma escolha mais acertada. Sabe-se que pensa e o que pensa. Tem um aguçado espírito crítico, mas também sabe planear e concretizar. Problematiza o presente e tem os olhos postos no futuro, no pensamento estratégico e sistémico.

Portugal precisa de pensar e de agir para além dos tempos curtos dos mandatos. A pandemia pode ser a grande "oportunidade" para definir um caminho estruturado, participado e duradouro, em vez da casuística das medidas.

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Acompanho as intervenções públicas de ACS e tive-o recentemente como speaker no curso de Auditor de Defesa Nacional. Foi um momento de excelência.

Ocorre que o Norte está pior do que a média nacional e tem especificidades estruturais que o distinguem e particularizam.

Sei que Portugal precisa, mais do que nunca, de um plano estratégico e de caminhos estruturados. Mas também sei que a diversidade do país exige linhas comuns, mas também grande atenção às especificidades desenvolvimentistas territoriais.

Tratar por igual o que é diferente pode significar reproduzir e aprofundar a desigualdade, aumentando o fosso. Precisamos de uma abordagem sistémica, mas os sistemas são complexos e incluem singularidades.

Na verdade, é possível que Portugal precise de um plano estruturalmente integrado e estrategicamente pensado, enfim, de planos. E António Costa Silva é a pessoa certa para o fazer.

*Presidente da CM Gaia / Área Metropolitana do Porto

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