Opinião

A difícil fronteira entre o cuidado e o pânico

A difícil fronteira entre o cuidado e o pânico

Estamos a entrar no "olho do furacão", desafiados para o combate a um temporal muito severo, no qual todos seremos poucos e se exige estarmos unidos no mesmo objetivo: ultrapassar a situação com o menor dano coletivo possível.

Os números da pandemia são atualizados diariamente, sendo objeto de inúmeras análises, projeções e especulações sobre a sua evolução, com a palavra exponencial quase sempre presente. Faz muitos anos que consolidei um princípio postulado por Alfred Haiger, que nos explica de forma natural que podemos tratar a biologia com a matemática, mas que não devemos nunca tratar a mesma como se fosse matemática.

No final, os vários modelos explicarão com mais ou menos rigor o que se passou com o processo de contaminação e suas consequências, mas até lá serão os princípios biológicos a condicionar a situação, mantendo-se a obrigação de todos para evitar ao máximo "provocar ainda mais a natureza biológica da situação", até pelas condicionantes materiais de intervenção disponíveis.

O que nos espera em matéria de consequências económicas é de todo imprevisível, podendo oscilar entre uma recessão, mais ou menos temporária, ou uma depressão mais profunda.

O importante mesmo é que se pretendemos implementar um sistema de apoio rápido e eficaz à atividade económica, ele seja isso mesmo, o que exige por parte dos responsáveis um conhecimento detalhado da(s) realidade(s), que evitem os prolongados processos burocráticos e as insuportáveis margens bancárias, bem como a ligação dos apoios às análises a posteriori da queda da atividade nas empresas.

Um modelo eficaz poderá ser o que consiga criar uma conta corrente financiada pelo BCE, em que a dívida gerada pela situação possa constituir um crédito a médio/ longo prazo do Estado sobre o tecido empresarial, sem que a dívida afete os rácios a cumprir no futuro. Será uma forma de mantermos, em simultâneo, a necessária liquidez do setor público e da atividade económica. Finalmente, em tempos em que todo o cuidado será pouco, é também decisivo não entrar em pânico.

*Professor catedrático, vice-reitor da UTAD

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