Opinião

A doença visível

O encerramento da delegação da CMVM no Porto motivou algumas reações de protesto, mais ou menos irrelevantes no contexto em que tal facto ocorreu. Há muito que esta delegação não tinha expressão na atividade da entidade de supervisão do mercado de capitais, num processo típico de manifestação e evolução da "centralite", doença crónica que há muitos anos nos vai sufocando. Com o devido respeito às poucas pessoas que ainda restavam na delegação, a sua atividade já não era efetivamente percebida, na cidade e na região.

Lamento bem mais as muitas reações que percebo nas redes sociais pela não atribuição ao Porto da sede da Agência Europeia do Medicamento (EMA), erupção típica de um recalcamento massivo de muitos infetados pela doença, que vivendo no epicentro da epidemia, não entendem sequer como foi possível tal desaforo.

Mas é ainda mais grave a situação anémica das supostas sedes de algumas entidades relevantes para a atividade económica, como são por exemplo o IAPMEI, ou a AICEP. Porque uma descentralização efetiva de entidades com esta importância podia e devia ser fator de equilíbrio na afetação de recursos públicos ao território. Ou relembrando ainda casos críticos observados na gestão do QREN, como foram os fundos do FINOVA, então justa e publicamente denunciados pelos responsáveis dos fundos estruturais na região.

Em conjunto com outros responsáveis políticos da região tentamos, sem sucesso, que as autoridades de gestão dos programas operacionais temáticos do Portugal 2020 ficassem localizados nas regiões de convergência, como são o Alentejo, o Centro e o Norte de Portugal. Pela importância que tem o COMPETE, sugerimos mesmo que a sua sede pudesse ficar em Aveiro ou Braga, num sinal claro de que não pretendíamos que a doença eclodisse num novo foco portuense. Cidades como Évora, Coimbra, Vila Real ou Bragança podiam tranquilamente ser sedes destas estruturas operacionais, que concentram emprego qualificado e que, sendo pagas com fundos europeus, têm como designo máximo a correção de assimetrias de rendimento entre países e regiões.

Mas esta doença visível torna os seus portadores insensíveis a qualquer argumento deste tipo, apenas lhes provocando alguns arrepios de consciência momentânea, quando ocorrem situações críticas nos locais que eles ignoram em cada dia da sua ação política.

PROF. CATEDRÁTICO, VICE-REITOR DA UTAD

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