Opinião

As leituras da comunicação

As leituras da comunicação

Faz tempo que retive o exemplo clássico da forma como o ruído pode alterar o conteúdo de uma mensagem. A ordem simples do capitão ao sargento-ajudante, de convocar a companhia para observar, no dia seguinte e em uniforme de campanha, um eclipse do sol, foi na sua terceira iteração transformada numa explicação do eclipse sobre o capitão. No tempo difícil que estamos a atravessar, a comunicação com ruído e difícil de entender deve ser evitada, por forma a maximizar o objetivo da mensagem.

Um dos maiores focos de atenção prende-se com o programa de vacinação, face à urgência de termos o maior número possível de pessoas imunizado, em especial grupos de risco e profissionais de saúde. Daí que a comunicação deva ser regular e precisa, evitando situações de aparato mediático como a da chegada das primeiras doses de vacina, ou possíveis tentações para oportunismos. Caso contrário, podemos passar a ideia errada da chegada do milagre, ou pôr em causa a confiança no sistema por episódios menos recomendáveis.

Se o que estamos a assistir é a uma reprogramação do calendário escolar, então tem de se dizer isso mesmo: ninguém tem aulas porque há uma interrupção obrigatória para todos. Fica a margem para que os estabelecimentos escolares no seu conjunto, públicos e privados, possam serenamente distribuir tarefas para manter os alunos ocupados. Caso contrário, gera-se a discussão sobre a interferência do estado na autonomia das escolas privadas. É também crítico que quando se garante algo de concreto e em prazo definido para o sistema de ensino, o objetivo seja concretizado e o prazo respeitado.

Quando temos um projeto político que apela à radicalização e divisão dos portugueses em grupos, a obter votações expressivas em todo o interior do país, mesmo em zonas de tradição política nos antípodas desse projeto, então devemos perceber porque é que isso acontece. Se a resposta for que essas populações se sentem desiludidas pela ausência de resultados concretos, então a mensagem é não só clara, como perigosa e de consequências imprevisíveis.

Prof. catedrático, vice-reitor da UTAD

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