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Entre barragens, montarias e refinarias

Entre barragens, montarias e refinarias

Em tempos de vertigem mediática e de sucessivos acontecimentos críticos, quase me apetece dizer que entre as barragens de Trás-os-Montes, uma dita montaria e a refinaria da Galp, saia uma vacina para a TAP.

É inacreditável a situação da venda de barragens do Douro pela EDP, por valores da ordem de milhares de milhões de euros, sem que daí resulte um cêntimo de benefício para as populações locais. Não colocando em causa a legitimidade formal do negócio, ou o respeito pelos princípios legais, é bom refletir sobre um modelo que possibilita que, no final de dezenas de anos de exploração de um bem situado numa das regiões mais pobres do país, o proveito de uma qualquer sociedade de advogados que tenha assessorado o processo seja superior ao das populações envolvidas. Parece óbvio que este sistema redistributivo seja questionado.

O homem é muitas vezes vítima das suas circunstâncias. Quando um conjunto de pessoas se concentra dentro de um espaço cercado por muros e durante algumas horas, em dois dias consecutivos, abate de forma primária centenas de javalis e veados, não estamos perante qualquer ato venatório digno desse nome, antes, sim, no extravasar de um lado selvático e primitivo da natureza humana. Confundir este episódio com a prática venatória de pequenas espécies, como é o caso da perdiz, em que o calcorrear da natureza durante quilómetros, na companhia de um cão, é prática ancestral e em equilíbrio com o ecossistema, como fizeram alguns grupos mais radicais, é entrar no domínio do disparate, que só acicata um triste extremar de posições.

A lógica simples da folha de cálculo pode determinar o encerramento de uma refinaria. Na prática, será sempre este o resultado do processo iterativo da concentração, que no limite nos levará a admitir que todos iremos viver no litoral, acantonados em torno das duas grandes áreas metropolitanas. Não terá futuro positivo um país que assim pensa. Por fim, a triste novela da TAP, numa espécie de desvario interminável, suportado por sucessivas reestruturações pagas pela riqueza comum.

Estamos mesmo a precisar de uma vacina!

*Prof. catedrático, vice-reitor da UTAD

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