Opinião

A Europa visível

Em ano de eleições europeias é sempre bom reavivar memórias, fazer balanços e refletir de forma ponderada sobre a nossa integração no espaço europeu.

A participação portuguesa no projeto de uma nova Europa, quando enquadrada historicamente na fase posterior a 25 de Abril de 1974, só pode ser vista como muito positiva, seja do ponto de vista económico, ou social. Até essa altura, muita da nossa emigração foi realizada em condições deploráveis, fosse pelo seu caráter clandestino, pela ausência de condições de dignidade na viagem ou, em muitos casos, nas próprias condições de acolhimento, simbolizadas nos mais de 15 mil portugueses que chegaram a "viver" no bairro da lata de Champigny, então referido como o "Enclave português". Construíram-se barracas durante a noite, para arrendar aos recém-chegados no dia seguinte. Daí que o estatuto e respeito que a nossa comunidade emigrante ganhou na Europa só nos pode deixar orgulhosos.

Até ao início dos anos 80 a verdadeira Europa começava em França, onde o salário mínimo era bem superior ao vencimento de um técnico superior, ou mesmo ao de um docente universitário em início de carreira em Portugal. Se olhávamos para Espanha, também em fase de saída de níveis de pobreza assinaláveis, ainda se aguentava o impacto, mas quando se passava Hendaia percebíamos o abismo do nosso atraso. Temos assim que estar gratos a líderes como Jaques Delors, Mário Soares e Felipe González, pelo fôlego que foram capazes de dar à ideia de um grande projeto europeu. Delors focou-se, então, no domínio de maior consenso, ligado ao avanço da união económica, simbolizada no ato único europeu, que previa, em 1993, a livre circulação de pessoas, mercadorias, bens e serviços. O Tratado de Maastricht representou também um largo passo em frente no reforço de laços políticos, fortemente marcados pela adoção e implementação de uma moeda única. A 1 de janeiro de 1999, 11 países inauguraram oficialmente o euro, que passou a existir na forma de notas e moedas a partir do início de 2002. E que diferença, se nos recordarmos das intermináveis filas nas fronteiras entre países, ou das perdas de tempo e dinheiro com as trocas e aquisições das diferentes divisas.

É tudo isto também que está em causa e que é sempre bom recordar, em especial pelo privilégio que é viver este tempo, neste espaço.

* PROFESSOR CATEDRÁTICO, VICE-REITOR DA UTAD