Opinião

A França da multiculturalidade

A França da multiculturalidade

Terminou o Mundial de futebol, com a vitória da seleção francesa, justa pela consistência, qualidade e regularidade apresentada por um plantel que é, ele próprio, símbolo da forma como este país tem integrado uma miríade de populações distintas.

Estou grato à França, que me acolheu durante uma parte muito importante da minha vida enquanto estudante de doutoramento. Integrei-me e aprendi a gostar deste país, de tal forma que um dia o diretor do departamento de investigação do centro em que me encontrava confidenciou ao meu responsável na Universidade do Porto, não sem uma pequena ponta de chauvinismo, que já só alguém muito atento reparava que eu não era mesmo francês! Foram tempos fantásticos, na segunda metade da década de 80, em que pagava o modesto T0, ou o quarto da residência de estagiários, as senhas de almoço na cantina para os dias úteis e com o que sobrava comprava alimentos para cozinhar em casa no resto do mês, recorrendo muitas vezes ao manual prático da sobrevivência dos jantares partilhados. Nos melhores dias havia direito a refeição melhorada a convite de várias famílias adotivas, onde aproveitei para aprender um pouco sobre o que de bom tem a cozinha francesa. À época não havia telemóveis, sendo a inovação representada por uns cartões da France Telecom que me permitiam telefonar de forma mais económica para os meus pais. A outra alternativa eram umas cabinas com número próprio para qual me ligavam após ouvir o meu sinal. A verdadeira Europa começava em França, onde o salário mínimo era o triplo do meu vencimento. Um emigrante a trabalhar na construção civil ganhava três a quatro vezes mais do que um docente universitário em início de carreira em Portugal. Em Espanha ainda se aguentava o impacto, mas quando se passava Hendaia, tudo ficava mais difícil. Mantive durante muitos anos o hábito de passar pelo INRA-Aquitaine para estudar e conversar. Perceber o que se passava num dos melhores locais de I+D do Mundo no meu setor fazia-me sentir bem. Ficaram amizades para a vida e uma ligação pessoal indelével.

É este país, que sempre tem sido capaz de se reinventar como pátria da liberdade, igualdade e fraternidade, mesmo quando parece perto do abismo da tentação populista, que hoje e aqui saúdo como nação vencedora e multicultural.

VICE-REITOR DA UTAD

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