Opinião

A lei da gravidade num mundo plano

O articulista do "New York Times" e vencedor de três prémios Pulitzer, Thomas Friedman, foi pioneiro no estudo e análise da globalização, com ênfase nos seus efeitos numa economia das ligações e conexões globais, que transformaram radicalmente as referências habituais de distância, tempo e trabalho. Evidenciando a ideia de um mundo plano, em que o estabelecimento de redes potenciou o aparecimento de novos players como a China ou a Índia, Friedman tenta passar a mensagem do contributo potencial da nova globalização para um mundo mais igualitário, baseado na circulação massiva da informação.

Mas num sistema de competitividade global passam também a existir novos riscos e desafios. Porque agora se o teu trabalho pode ser feito mais barato por alguém na Ásia, ou mais eficientemente por um computador algures, o teu emprego passou a estar em risco. O mesmo acontece se o teu trabalho qualificado numa empresa internacional pode ser feito por um colega em Madrid, Paris ou Londres, o que estabelece uma nova pressão sobre a circulação e emigração das elites. Num mundo em transformação constante, a economia globalizada passou a ter uma lógica diferente, porque funciona em rede e com enfoque natural nos maiores mercados. Como consequência acentua-se um efeito gravítico sobre os menores, ou mais fracos, com efeito negativo no emprego qualificado, no talento e no investimento.

Acaba por ser um pouco o que aconteceu em Portugal. Ao longo dos últimos anos este "efeito da gravidade" gerou um movimento de perda do interior para o litoral, do litoral para Lisboa e daqui para outras capitais do globo. Mas se olharmos para o território como um todo este movimento foi ainda mais vasto. O efeito gravítico sentiu-se das vilas e concelhos para as antigas capitais de distrito. Mas mesmo nos concelhos mais pequenos o movimento de perda de população e serviços ocorreu das aldeias para os núcleos urbanos das suas sedes. Também aqui com o argumento comum da melhoria da eficiência pela concentração.

Contrariar este "efeito da gravidade num mundo plano" parece ser uma abstração, sendo assim difícil de entender e solucionar. Mas é, por isso mesmo, um dos mais complexos e desafiantes obstáculos a vencer. Porque é aí que se estabelece a linha de fronteira entre países globalmente desenvolvidos e outros que nem por isso! PROFESSOR CATEDRÁTICO E VICE-REITOR DA UTAD