Opinião

Bem hajam os que acreditam!

O Movimento pelo Interior realizou na última sexta-feira a apresentação pública das medidas que propõe para a revitalização socioeconómica dos territórios mais desfavorecidos, também designados de baixa densidade, que constituem a maior e mais desfavorecida parte do todo nacional. O local escolhido não podia ser mais emblemático, o Museu Nacional dos Coches, em Lisboa, com origem na fase final da monarquia, ela própria símbolo de um país macrocéfalo e desequilibrado.

Já referi a enorme qualidade do grupo de pessoas que se empenhou na elaboração de um conjunto de propostas concretas, que mereceram naturalmente o apoio circunstancial e mediático, entre equilíbrios e afetos. De certa forma há muito que este tema, de tão massacrado, me faz lembrar a passagem bíblica de "bem-aventurados os que não viram, mas creram". Durante os últimos 20 anos tenho consolidado uma teoria cada vez mais óbvia: em matéria de centralismo o pior de todos os governos é, e será, sempre o que está. Cada um acrescenta sempre algo mais a um processo iterativo, gradual, triturador, alimentado por uma máquina que vai engrossando à custa dos novos convertidos à lógica da suposta eficiência política da centralização de processos e decisões. É só ouvir os comentadores oriundos de um norte, que para a ignorância centralista absorve mesmo o queijo da serra da Estrela, dissertando sobre a intriga da corte, combustível fundamental para a miríade de interesses diretos e colaterais, sustentados por um país real que se foi com o tempo habituando à dor causada por esta doença crónica que é o centralismo.

Um país que queira ser solidário exige que todo e qualquer concelho, maior ou mais pequeno, tenha a sua unidade de saúde aberta de dia e de noite. Quantas vidas não se perdem todos os anos por uma falta de apoio médico mais imediato, mas que nos passam despercebidas, apenas porque não têm o efeito da desgraça concentrada por um qualquer incêndio? E são menos importantes por isso? Um país solidário exige a cobertura do território por serviços públicos essenciais, porque por maior que seja o seu valor estatístico unitário, em termos absolutos será sempre algo de risível face à despesa de funcionamento de um qualquer gabinete central. Até lá, felizes e bem hajam os que acreditam, mesmo quando nada vemos!

PROF. CATEDRÁTICO, VICE-REITOR DA UTAD