Opinião

O Ensino Superior e o território

O Ensino Superior e o território

Na generalidade dos países mais desenvolvidos, o Ensino Superior público é utilizado como instrumento de política de coesão territorial, uma vez que este é um setor em que a distribuição e afetação de recursos constituem um dos mais eficazes meios de redistribuição de riqueza. Por isso, muito naturalmente, é sempre alvo de um debate alargado quando se trata de analisar o impacto das políticas públicas nas zonas mais interiores do país, também designadas como de baixa densidade. Estudos recentes mostraram que Portugal tem nas cidades de Lisboa e Porto, comparativamente às outras capitais e segundas maiores cidades da União Europeia, o maior e mais expressivo desequilíbrio neste domínio.

Quando analisamos a importância no desenvolvimento económico e social de instituições como as universidades de Trás-os-Montes e Alto Duro, da Beira Interior ou de Évora, ou dos institutos politécnicos de Bragança, Portalegre ou Beja, ela vai muito para além do impacto direto que resulta da presença de alunos nacionais ou estrangeiros, sendo em muitos casos uma das últimas âncoras de fixação de populações e atividade global desses locais e sua envolvente.

Por isso, quando vemos o aumento direto do número de alunos colocados na primeira fase do concurso nacional de acesso em Bragança, Vila Real ou Portalegre, só temos que nos regozijar pela opção dos nossos jovens e suas famílias, aceitando simultaneamente a responsabilidade de fazer deles pessoas melhores e mais capazes de enfrentar os desafios do futuro. Sendo certo que há fundadas reservas sobre a eficácia da decisão do Governo na imposição da descida do número de vagas nas instituições públicas situadas em Lisboa e no Porto, sobretudo na sua ligação direta à transferência desses alunos para o interior, é um facto que a minimização de desequilíbrios obrigará necessariamente à implementação de novas soluções em anos futuros. Porque sendo certo que ninguém deseja a limitação no acesso às melhores formações, continua a existir uma grande margem de intervenção no papel regulador do estado no apoio público a algumas áreas de formação específica, que podem, essas sim, sofrer cortes ainda mais significativos, passando a ser apostas claras do estado nas instituições que estão mais longe dos grandes centros.

*PROF. CATEDRÁTICO, VICE-REITOR DA UTAD

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