Opinião

Os desafios permanentes da liberdade

Os desafios permanentes da liberdade

Vivi o dia 25 de Abril de 1974 em plena fase da adolescência, como aluno do Liceu Nacional de Alexandre Herculano, que tinha a particularidade de estar próximo da delegação da PIDE/DGS, um dos motivos prováveis para a atividade política latente que sempre se sentiu neste liceu, onde o nível e qualidade de ensino eram excecionais, do melhor de que beneficiei em todo o meu percurso escolar, Ensino Superior incluído.

Os tempos que se seguiram foram de enorme agitação, com o reitor e muitos professores a serem saneados, no meio de uma euforia e um caos indescritível, desde a quase total ausência de aulas, votações de classificações de braço no ar e livros de ponto rasgados. As reuniões gerais de alunos eram controladas pela união de estudantes comunistas, UEC, que condicionava fortemente qualquer tomada de decisão não alinhada com a revolução! Mas rapidamente a ordem se estabeleceu no ano letivo seguinte, sobretudo quando um grupo de alunos de que me orgulho de ter feito parte tomou os destinos da Associação de Estudantes e articulou com os professores o restabelecimento da ordem e normalidade do ensino. A euforia do momento da liberdade, pondo fim a um regime decrépito, anacrónico e isolado do Mundo, provocou naturalmente alguns excessos, que me levam sempre a tentar limpar da memória os dois anos seguintes ao 25 de Abril, pese o sofrimento direto injustamente sofrido por muitos. Já tenho muito mais dificuldade em compreender as mudanças drásticas de posicionamento político de alguns cristãos novos do capitalismo, ocorridas 15 anos depois e por alturas da queda do Muro de Berlim.

Temos fortes razões para festejar abril e a liberdade. A afirmação democrática do municipalismo, a par de um acesso à saúde e à educação, em condições incomparavelmente melhores do que a miséria em que vivia grande parte da população, são das maiores conquistas dos últimos 45 anos. Viver em democracia e em liberdade é um desafio permanente para todos e cada um de nós, com a consciência de que são, em si mesmo, um bem intocável para a sociedade.

* PROFESSOR CATEDRÁTICO, VICE-REITOR DA UTAD