Opinião

O valor da reputação

O valor da reputação

O valor da palavra foi durante muitos anos um ativo sólido na realização de negócios, ou mesmo forma de manutenção para muitos deles.

No Porto, espaço onde o estímulo ao comércio sempre constituiu uma marca identitária da sua geografia económica, dizia-se que gostar de trabalhar e "ter bom nome na praça", leia-se crédito por parte de terceiros, eram ativos-base para ser bem sucedido num negócio.

Nos últimos anos, estes princípios aparecem expressos de forma mais académica na teoria das organizações, em que os valores intangíveis da reputação, responsabilidade social, comunicação e marca se converteram em fatores estratégicos da gestão empresarial. A médio, longo prazo, a sua boa gestão pode constituir um ativo potencial das organizações. Saber competir e ter sucesso no mundo atual não passa apenas pelo grau de eficácia em conseguir ganhar quotas de mercado, crescer e afirmar-se financeiramente, mas também por ganhar e consolidar o respeito, admiração, empatia e confiança de todos aqueles que de forma direta, ou indireta, são fundamentais para a sua perenidade. A liderança pelo reconhecimento é um desafio em si mesmo para as organizações, o que implica a incorporação do juízo de valor que a sociedade vai formando sobre as mesmas. Construir uma boa reputação requer tempo e paciência, exigindo transparência de processos, comunicação institucional clara, responsabilidade social, boas práticas ambientais e um bom relacionamento com o conjunto alargado de "stakeholders".

O caso mais recente da venda de seis barragens localizadas em Trás-os-Montes pela EDP a um grupo francês põe em ênfase o conjunto de valores aqui enunciado. Não colocando em causa a legalidade de qualquer ato formal praticado, seja de natureza societária ou fiscal, fica a dúvida sobre se o grupo EDP em algum momento do processo esteve preocupado com o seu valor reputacional? Será que a poupança de 110 MEuros em impostos valerá mais do que a entrega desse montante em benefício das populações locais? Qual não seria o ganho a médio, longo prazo, desse gesto?

*Prof. catedrático, vice-reitor da UTAD

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