Opinião

Sobretudo, bom senso

De repente, um conjunto de valores e produtos tradicionais estão a ser sacudidos por notícias alarmistas que encontram eco e campo fácil de propagação numa Comunicação Social mal preparada para temas desta índole. Como se não bastasse, assistimos, ainda, a declarações em catadupa por parte de pessoas que revelam, de forma evidente, uma das mais preocupantes doenças públicas: a síndrome do microfone. Para que conste e como registo de interesses, o autor deste texto é especialista pela Ordem dos Engenheiros em Segurança Alimentar.

Lemos títulos de periódicos, ouvimos programas de rádios e notícias de televisão que associam de forma direta o consumo de carnes vermelhas e de transformados de carne ao aparecimento de cancro. Em alguns casos afirma-se, mesmo, que esse efeito é igual ao do tabaco! É confrangedor ver tanto disparate concentrado sem que haja, sequer, uma cautela mínima nas afirmações proferidas ou uma preocupação com o seu impacto direto num setor de atividade tão alargado como o da alimentação, que cruza de forma transversal uma boa parte da nossa sociedade.

E depois vemos o que diz em direto o responsável da OMS: que o consumo excessivo de carne vermelha e transformados aumenta o potencial cancerígeno (não é novidade, os excessos sempre fizeram mal), mas sobretudo afirma que, mesmo nesses casos extremos, estamos num nível de risco muitíssimo inferior ao do tabaco! Afirma ainda que, não existindo uma relação direta entre as duas coisas, deve existir moderação no seu consumo. Esta informação é lida e traduzida em Portugal como se de repente todos nós nos deleitássemos com mais de 50 gramas de enchidos por dia, e todos os dias, ou a comer alguns quilogramas de bom bife de vitela por semana. E aparecem responsáveis que quase parecem recomendar a ingestão exclusiva de fruta e vegetais, o que também não é nada salutar, já para não falar nas quantidades de compostos indesejáveis que também estaremos a ingerir em muitos desses casos.

A ingestão de carnes e transformados em quantidades moderadas e de forma alternada com outro tipo de alimentos pode e deve fazer parte da nossa dieta. Sem que isso constitua um fator adicional crítico ao risco natural do homem à doença e ao potencial desse risco que a alimentação sempre representa.

Como em tudo na vida, é preciso bom senso. E o alarmismo mediático é, normalmente, o seu maior inimigo.

A ingestão de carnes e transformados em quantidades moderadas e de forma alternada com outro tipo de alimentos pode e deve fazer parte da nossa dieta

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