O Jogo ao Vivo

Opinião

Um homem do Porto

É sempre difícil regressar à noite de 4 de dezembro de 1980. Após o jantar assistia com os meus colegas de universidade a um programa de televisão na sala da residência quando a emissão foi interrompida pelo Raul Durão, que com um ar grave anunciou o acidente da avioneta que transportava o primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro. A confusão, a desorientação, a estranha sensação de pânico, mas sobretudo o enorme sentimento de perda, marcam para sempre de forma indelével as minhas memórias dessa noite e dias seguintes.

Conheci mal Sá Carneiro, com quem me cruzei apenas algumas vezes. Recordo da adolescência a admiração e respeito com que o meu Pai falava dele, tendo também bem presente a turbulência ocorrida no liceu de Alexandre Herculano aquando da distribuição das suas intervenções na então Assembleia Nacional. Onde teve a coragem de enfrentar o regime e apresentar um projeto de lei para alterar a Constituição. A sua luta por um país livre e democrático não mudou depois da revolução de abril, fosse no combate e oposição tenaz aos desvarios dos radicalismos esquerdistas, ou mais tarde na reposição da ordem dentro do seu próprio partido popular democrático, onde a vertigem revolucionária atingia a própria JSD, que até tinha criado um jornal que perdurou com o título de "pelo socialismo". Foi por essa altura que tive o privilégio de participar em eventos por ele liderados, sendo marcante a forma magnética como a todos contagiava e a perceção única de tudo o que o rodeava.

A sua ação como primeiro-ministro deixa marcas muito fortes, sendo de realçar o seu empenho no arranque de um programa sério de regionalização, baseado na desconcentração de serviços do estado central e fortalecimento das comissões de coordenação regionais. Ainda hoje a principal sala da CCDR-N é marcada pela foto histórica da inauguração da sua sede atual. Será sempre subjetivo, mas permanece em muitos de nós a forte convicção de que sem o seu desaparecimento todo o sistema de estruturas regionais construído pacientemente por Valente de Oliveira não teria sido destruído de forma irremediável numa manhã de nevoeiro centralista da primeira metade dos anos 90.

Tudo isto num tempo de vida curto, em que Francisco Sá Carneiro foi um visionário homem de Estado, sem nunca ter deixado de ser um homem do Porto!

* PROFESSOR CATEDRÁTICO E VICE-REITOR DA UTAD

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