Opinião

A arma política e o trunfo económico das vacinas

A arma política e o trunfo económico das vacinas

A vacinação não está a correr bem na União Europeia. A Comissão Europeia é acusada de não ter investido na investigação, não ter acautelado prioridades de compra e de travar exportações de doses produzidas no seu território. O Reino Unido também não está imune a polémica: os 29 milhões de vacinas da AstraZeneca escondidos em Itália, prontos a ser exportados, são um sinal de uma ganância cega.

A vacinação contra a covid-19 não é assunto estritamente de saúde. É uma arma política para vários países e um trunfo económico para grupos que detêm as patentes ou estão envolvidos na respetiva produção. Em breve, a Sanofi vai ajudar a produzir as vacinas da Johnson & Johnson em França e da Pfizer na Alemanha. A AstraZeneca continua a ser um joguete de interesses geoestratégicos. Por estes dias, a administração Biden bloqueou no país 10 milhões de doses que o laboratório anglo-sueco desejava exportar para a Europa, quando esta vacina está ainda por autorizar nos EUA. Não é um caso isolado. Há pouco tempo, a Itália impediu a exportação de 250 mil doses da mesma vacina para a Austrália. No entanto, esta política protecionista tem tido brechas, provocadas por contratos previamente assinados. Neste contexto, vários países da UE já exportaram mais de 9 milhões de doses para o Reino Unido, 4 milhões para o Canadá, 1,5 milhões para a Arábia Saudita... A contragosto. Os média britânicos, sobretudo aqueles próximos da linha defensora do Brexit, criticam o ímpeto controlador das exportações, argumentando que o protecionismo afasta multinacionais.

Na verdade, a UE está num beco sem saída. Vários países estão perto de uma nova vaga pandémica, o que torna esta questão mais sensível. Para além do acesso e distribuição de vacinas estar a ser muito difícil, há ainda o problema da morosidade de administração de doses em cada país. Esta semana, a revista "L"OBS" mostra como os EUA estão a criar uma campanha militar de choque através de gigantescos centros dedicados à vacinação, a funcionarem 24 horas por dia, com a mobilização de médicos, estudantes de medicina e enfermagem, bombeiros e veterinários para inocularem o maior número de pessoas.

A Europa precisa de se reposicionar neste mercado, de ponderar licenciar vacinas excluídas da rota europeia e de acelerar a distribuição. Em cada país, os planos devem estar bem clarificados e a organização no terreno tem de ser a mais eficaz possível. O nosso futuro depende do sucesso deste processo.

*Prof. Associada com Agregação da UMinho

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG