Opinião

A crise no Reino Unido através dos média britânicos

A crise no Reino Unido através dos média britânicos

Escolhamos publicações jornalísticas mais à direita ou populares. Aí, o principal alvo de críticas é o líder dos trabalhistas. Que não tem coragem de se posicionar. Que é obrigado a engolir o Brexit. Que deitou janela fora a oportunidade de eleições antecipadas. Voltemo-nos para títulos mais à esquerda. Nesse caso, faz-se pontaria ao atual primeiro-ministro, acusado de mentir e precipitar o país num temível caos. Bem se percebe que a tão desejada objetividade não existe. Há, sobretudo, uma construção social da realidade. Muito parcial. E perigosa.

Colocando um informal Boris Johnson na capa a lançar dados, a revista "The Spectator" garante que está tudo em jogo: um acordo, um não acordo, eleições antecipadas, um Brexit mais ordeiro... No entanto, garante que, mais cedo ou mais tarde, este processo ditará eleições gerais. Que devem penalizar os trabalhistas, porque o seu líder sempre foi contra a permanência do Reino Unido na União Europeia, andando a patinar em meias tintas; e, acima de tudo, porque o partido tem políticas perigosas para a vitalidade da economia do país. O jornal "The Daily Telegraph" fazia manchete com a seguinte frase: "O hipócrita Corbyn rejeita eleição para ultrapassar o impasse". E o popular "The Sun" colocava o líder trabalhista na pele de uma galinha para dizer que foi obrigado a engolir o Brexit. Lendo estes jornais, quase esquecemos que, por estes dias, o protagonista é outro. Que, no entanto, se assume como figura central em publicações mais à esquerda.

Centremo-nos na revista "NewStatesman". Na capa, vemos um Boris Johnson que nos vira as costas, com um casaco preso a umas cuecas que se veem fora de umas calças de cinta algo solta, com uma coroa em equilíbrio precário na cabeça e um cetro que carrega às costas. A mensagem enche-se de significado político. A publicação considera o primeiro-ministro um mentiroso e acrescenta que aqueles que o apoiam são piores. Em causa está o futuro da União Europeia, a estabilidade da economia e a paz da Irlanda, motivos mais do que suficientes para afastar o primeiro-ministro que, segundo o jornal "The Guardian", está encurralado em sucessivas derrotas.

Mantendo alguma distância em relação a cada lado da barricada, "The Times" diz aos leitores que não precisam de se contentar com Boris Johnson ou Jeremy Corbyn. Há caminho pela frente. Mas a verdade é que não há tempo para decidir trilhos. E isso é uma colossal vulnerabilidade para o futuro do Reino Unido.

*Professora Associada com Agregação da Universidade do Minho