Opinião

A força da sociedade civil

A força da sociedade civil

A necessidade estava detetada: nos diferentes internamentos do Hospital de Braga a sala destinada a doentes carecia de uma reabilitação. A Liga de Amigos, a que presido, foi desde o primeiro momento sensível à situação, mas não tinha verbas para fazer face ao investimento necessário.

Decidiu-se lançar o desafio à sociedade civil. A resposta foi surpreendente e reveladora de um generoso sentido de responsabilidade social das empresas de Braga.

Há cerca de dois meses, percebemos que nos internamentos as salas para doentes necessitavam de uma intervenção para que fosse possível aí conversar com familiares ou fazer confortavelmente uma refeição. Eis aqui uma oportunidade para criar um ambiente algo semelhante ao de nossa casa que tanta falta nos faz quando estamos num quarto de um hospital. Pedido um projeto a uma arquiteta de interiores e um orçamento das obras a executar a uma empresa, percebemos que sozinhos nunca conseguiríamos concretizar aquela obra que se multiplicava por 15 salas em diferentes pisos do Hospital de Braga. Havia que encontrar alternativas. A mais óbvia foi a organização de um jantar solidário, que apenas reuniria verbas para iniciar a primeira reabilitação. Em paralelo, começámos a procurar mecenas que nos ajudassem a suportar o investimento. Em menos de oito semanas, conseguimos apoio para a reabilitação de todas as salas e o jantar que hoje se realiza apenas não vai além das 200 pessoas porque o espaço não comporta mais gente.

Esta forte adesão da sociedade civil dá-nos múltiplos sinais. Apesar dos discursos apocalípticos que proclamam a persistência de um espaço público anestesiado em relação ao bem comum, há ainda uma cidadania de alta intensidade que se move por causas de interesse coletivo. Também é falso que não nos interessamos pela coisa pública, nem tão-pouco se poderá assegurar que a pressa com que vivemos nos torna imunes ao sofrimento dos outros. Apenas precisamos de ser interpelados e necessitamos que nos expliquem, devagar e de forma clara, quais os desafios a propor. E depois é começar a fazer a viagem em conjunto, havendo a garantia de que, durante o percurso, teremos sempre quem nos preste contas em relação àquilo que vai sendo feito.

Hoje à noite, o jantar solidário abre com uma atuação musical de mais de 100 crianças do Colégio Dom Diogo de Sousa que prescindiram de parte da pausa trimestral para ensaiar aquele momento. Fizeram-no em prol do Hospital de Braga. E também essa generosidade espontânea dos mais pequeninos abre um enorme futuro de esperança à nossa frente.

*Prof. Associada com Agregação da UMinho

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