Opinião

A importância dos media na descentralização do país

A importância dos media na descentralização do país

Qualquer reforma que vise promover a descentralização do país terá, em determinado momento, de refletir sobre o papel dos meios de comunicação social. Nacionais e regionais. Desenhando o espaço público por onde circulamos, os media noticiosos são centrais para o desenvolvimento do nosso território. Que estruturam e, simultaneamente, são estruturados pela realidade que refletem. Esta dualidade estrutural deveria merecer um amplo debate.

Hoje o país que somos é, sobretudo, mediatizado a partir de redações concentradas em Lisboa. Devido a constrangimentos económicos, os meios de comunicação social nacionais foram fechando delegações e dispensando correspondentes regionais. Ora, um país que se pensa e que se partilha a partir da capital que, por sua vez, junta quase todos os centros de poder, de decisão e de influência nunca poderá aspirar a políticas de coesão territorial de sucesso.

Hoje, o primeiro-ministro assinala o terceiro aniversário do Governo com uma conferência de imprensa no Porto, na segunda-feira junta os seus ministros para um debate de prestação de contas na Universidade do Minho. São sinais importantes relativamente à vontade de valorizar o que está fora de Lisboa. Mas precisamos de mais. Em diferentes domínios, sendo os media um campo central em qualquer processo de descentralização.

Refira-se que a norte de Lisboa se encontram quatro importantes universidades (Coimbra, Aveiro, Porto e Minho), líderes em áreas do conhecimento e, sobretudo, na respetiva valorização, isto é, na transferência dos resultados da investigação para a economia e para a sociedade. No caso da Região Norte, falamos de uma massa populacional de cerca de 3,7 milhões de pessoas (35 por cento do total nacional), que concentra quase 40 por cento das exportações nacionais, que tem tradicionalmente uma grande dinâmica sociocultural e onde se situa a segunda cidade do país. Será que esta realidade se reflete nos media noticiosos? Não muito.

Percorramos os jornais nacionais. Quantos projetos editoriais têm uma redação central fora de Lisboa? Um, o "Jornal de Notícias". Olhemos para a televisão. Quantos canais abrem estúdios para produção e emissão própria fora da capital? A RTP. É, de facto, limitado o panorama dos media portugueses em termos de descentralização. E isso deveria levar-nos a agir em diferentes direções.

Em primeiro lugar, é preciso reforçar os projetos existentes que, contra diversas dificuldades, têm conseguido vingar. O "Jornal de Notícias", por um lado, e a RTP através do Centro de Produção do Norte, por outro, têm sido responsáveis por conferir centralidade a realidades e a atores sociais que nunca teriam ganho visibilidade pública, se não houvesse essa proximidade editorial às idiossincrasias das diferentes regiões do país. Afaste-se, no entanto, qualquer tentação de lhes conferir estatuto regional. Falamos aqui de órgãos nacionais que terão de continuar nesse caminho para dar escala àquilo que noticiam.

Em segundo lugar, seria conveniente pensar em políticas públicas que ajudassem os media regionais a adquirir outra vitalidade. A esse nível, há um número significativo de meios de comunicação social vergados aos interesses das respetivas câmaras municipais. E isso não serve os interesses das populações para quem deve ser canalizada uma informação plural, isenta e diversificada. Só alcançando independência em relação aos diferentes poderes é que os media locais poderão ser motores de desenvolvimento.

Por estes dias, o Governo haverá de celebrar o seu terceiro aniversário destacando as suas preocupações com a descentralização. Ora, convém não esquecer que, a esse nível, os media noticiosos têm um papel importante a desempenhar. E ninguém parece ter ainda despertado muito para isso.

* PROFESSORA ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UNIVERSIDADE DO MINHO

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