Opinião

A Itália a ser (de novo) Itália

A Itália a ser (de novo) Itália

A partir de domingo, a Itália poderá ser governada pela extrema-direita. O partido Irmãos de Itália, apoiado pela Liga, de Matteo Salvini, e pela Força Itália, de Silvio Berlusconi, apresenta-se em primeiro lugar nas sondagens; e a sua líder, Giorgia Meloni, vem aumentando a popularidade em eleitores de outras forças partidárias. Nos média, multiplicam-se vozes temerosas face a uma mudança perigosa para a União Europeia.

Em campanha eleitoral, tem sido notável o esforço de Meloni em afastar de si sombras fascistas, ainda que ela própria tivesse, enquanto jovem, elogiado publicamente o ditador Benito Mussolini; e o seu partido, fundado em 2012, seja herdeiro do Movimento Social Italiano, uma força neofascista criada após a Segunda Grande Guerra. Nos média internacionais, os politólogos interpretam a expressiva subida da extrema-direita como consequência da debilidade dos outros partidos, procurando, assim, desvalorizar a força de Meloni, cuja ascensão é por muitos explicada pela queda de Matteo Salvini.

Ainda que Irmãos de Itália já tenham esclarecido que não irão abrir qualquer processo de saída da União Europeia, causa apreensão ouvir a sua líder afirmar que a Itália vai defender aí os seus interesses nacionais. Também provoca algum desassossego perceber que, com esta força no Governo, as minorias, sobretudo os imigrantes, não serão bem-vindas ao território italiano, nem tão-pouco serão bem aceites os casamentos homossexuais, a adoção de crianças por casais do mesmo sexo ou o aborto.

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Numa reportagem publicada ontem na revista britânica "The New Statesman", Jeremy Cliffe, um jornalista experimentado na cobertura de campanhas eleitorais em vários países europeus, escrevia que nunca tinha estado num comício tão policiado como aquele que testemunhou em Turim, protagonizado por Meloni. Há tensões a crescer e isso não augura dias tranquilos para o Governo de um país que, por norma, tem sempre uma constituição truculenta.

No assunto do momento, a guerra na Ucrânia, Giorgia Meloni tem apoiado o regime de Kiev, mas a sua proximidade a Viktor Orbán e a sua identificação com Donald Trump, bem visível no slogan de campanha ("tornar a Itália grande novamente"), fazem temer o pior. Há quem vaticine que o Governo cairá em pouco tempo, por falta de peso político do partido e pela inexperiência da sua líder, mas perceber que existe um eleitorado a movimentar-se para a extrema-direita impõe reflexão. Até porque, quando olhamos para a Itália hoje, poderemos estar a ver como será a Europa amanhã.

*Prof. associada com agregação da UMinho

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