Opinião

A minha história com a RTP

A minha história com a RTP

O meu primeiro contacto com a RTP fez-se através do arquivo. Foi uma experiência dura. Por pouco, não abandonei a investigação académica no campo dos estudos televisivos. Porque o que eu queria estudar não estava acessível de forma imediata. Ao comemorar agora 60 anos, a RTP decidiu disponibilizar online o seu arquivo histórico. Para já, 6500 conteúdos estão disponíveis para consulta, mas promete-se ir alargando esse riquíssimo acervo.

Há quase 25 anos, iniciava a minha carreira académica, escolhendo como área de investigação o audiovisual. Queria estudar o serviço público de televisão. Já na altura me intrigava o aceso debate que se fazia em torno da RTP, sem que houvesse estudos que sustentassem tantas eventuais certezas. Estávamos nos primeiros tempos da TV privada. O panorama audiovisual português passava por uma mudança radical e a academia parecia estar a passar ao lado de tão profundas alterações. Perante o colossal vazio nos estudos televisivos portugueses, não era difícil encontrar um tema por explorar. Nesse contexto, desenhei um projeto que procurava conhecer que tipo de serviço público prestava a RTP através do seu principal programa de informação diário, o Telejornal, selecionando, para isso, uma determinada amostra.

Para começar a investigação, impunha-se o óbvio: ter em mãos as edições pretendidas desse noticiário ou então os respetivos alinhamentos. Os problemas começaram antes do trabalho arrancar. Os contactos oficiais embatiam num reiterado silêncio da empresa. O arquivo do operador público afigurava-se intransponível. Valeram-me, na altura, alguns contactos que me levaram até Fernando Balsinha, que, então, integrava o Conselho de Administração da empresa. Lembro-me bem da nossa primeira conversa. Expliquei-lhe o quanto me inquietava o facto de a universidade não ajudar a ancorar em argumentos mais estruturados os debates sobre a televisão que temos e de como eu queria dar um pequeno contributo para isso. À minha frente, tive o privilégio de o meu interlocutor perceber bem o que me movia, disponibilizando-se logo para ajudar a abrir as portas do arquivo da RTP. Que visitei algumas vezes para estudar o Telejornal e depois, já em doutoramento, para analisar a informação não diária da RTP1. Haveria de voltar perto dos 50 anos do Telejornal para preparar uma publicação para essa efeméride.

O que eu aprendi no tempo em que ali permaneci a ler alinhamentos, a percorrer grelhas, a seguir guiões e a visualizar este ou aquele programa! Naqueles arquivos, estava uma importantíssima variável interpretativa do país e do Mundo a exigir, com a distância do tempo, o olhar mais analítico do investigador.

Ao comemorar 60 anos, a RTP decidiu colocar online parte desses arquivos, prometendo ir aumentando esse espólio. É, de facto, uma excelente notícia. O operador público português detém um importantíssimo acervo de sons e de imagens que fazem parte da história, sendo, de facto, um dos mais notáveis guardiões da nossa memória coletiva. Não faz sentido adotar uma política de secretismo para um arquivo que pertence a todos nós. Principalmente num tempo em que a tecnologia permite uma partilha digital, subtraindo riscos de danificar o material que é preciso preservar.

Continuando aceso o debate em torno das missões do operador público, esta abertura do arquivo da RTP ajuda-nos a compreender que o serviço público de média está para além daquilo que é a oferta de conteúdos de determinado canal. É preciso, pois, que a empresa perceba que tem de pensar estrategicamente e agir democraticamente. A TV pública é de todos os portugueses. Os cidadãos são o vetor estruturante do trabalho que aí se desenvolve. E esses públicos, diversos no que são e no que procuram, podem estar em casa ou em movimento, sem que essa mobilidade lhes subtraia a possibilidade de ver conteúdos audiovisuais.

Se o arquivo online é uma janela aberta para o que fomos, esse mesmo espaço digital pode abrir outras janelas em direção a um tempo que está por vir. Também a rádio e a televisão têm essa possibilidade. Porque o serviço público faz-se em diversas plataformas e em convergência de ecrãs. Há, pois, muito caminho pela frente.

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* PROFESSORA ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UNIVERSIDADE DO MINHO

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