Opinião

As lições do Japão

Habituados a climas efervescentes quando termina um jogo de futebol, é com estupefação que vemos os adeptos japoneses de sacos de lixo na mão a limparem calmamente as bancadas onde permaneceram nas duas horas anteriores. Também os jogadores da seleção nipónica replicam o mesmo cuidado nos balneários. Porque todos aprenderam a devolver ao espaço público ambientes tal como lhes foram proporcionados: limpos.

Há algum tempo um familiar chegado de Tóquio contava uma aventura singular vivida dentro de um táxi, naquela cidade. Numa viagem aparentemente normal, o condutor começou, a dado momento, a evidenciar sinais de alguma contrariedade. Chegado ao destino, o taxista recusou receber o pagamento da corrida pela simples razão de que, a meio do percurso, enganara-se numa das ruas e isso obrigara-o a percorrer um quarteirão mais do que o previsto. A explicação e pedido de desculpas gesticulado atiravam tudo aquilo para o domínio do inverosímil. Para nós, entenda-se. Não para aquele profissional para quem o seu erro não poderia nunca ser pago por um cliente, mesmo por um estrangeiro que estivesse longe de imaginar ter percorrido uns metros a mais para chegar ao seu destino em Tóquio.

Seriam estes comportamentos normais para todos os cidadãos de sociedades mais evoluídas, mas uma cidadania de alta intensidade, intransigente com o respeito do outro e do bem público, é ainda, em muitas geografias, um conceito mais presente em discursos normativos do que enraizado na práxis quotidiana.

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O comportamento dos adeptos e jogadores da seleção do Japão não é uma novidade neste Mundial. Já vimos isso noutros eventos internacionais que envolvem nipónicos. No entanto, no Catar a sensibilidade pelo respeito do outro é maior e a atenção dos média está mais aguçada para esse tipo de tematização. Ouvidos pelos jornalistas de vários países, os adeptos que limpam bancadas explicam que esse ritual é normal. Aprenderam a fazer isso desde pequenos em todo o lado: nas salas de aula, nas casas de banho públicas, nos espaços ao ar livre que frequentam...

Aqui, a maior lição não é propriamente o ato de limpar ou o rigor com a obrigação de ser verdadeiro. É, acima de tudo, isso refletir uma sociedade que naturaliza esses comportamentos desde muito cedo. Isso poderia levar-nos a rever profundamente o modo como organizamos as sociedades e como cada um de nós vai evoluindo dentro delas. Este caminho trilha-se na família e na escola, nas pequenas e nas grandes ações, no lazer e no trabalho, nos comportamentos públicos e nos privados. Parabéns aos adeptos japoneses.

*Prof. associada com agregação da UMinho

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