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Crimes sexuais na Igreja

Crimes sexuais na Igreja

A iniciativa foi corajosa. Em 2018, a Igreja católica francesa criou e financiou uma Comissão Independente para investigar abusos sexuais cometidos no seu interior desde 1950. Resultado: recolheram-se já 6500 testemunhos que podem ajudar a identificar 10 mil vítimas e três mil agressores. A partir de agora, é preciso agir. Para que estes crimes não se repitam.

O tema constitui a capa desta semana da revista L"OBS e as 12 páginas sobre o assunto impressionam. Muito. "Os relatos ouvidos são um memorial da dor", diz Jean-Marc Sauvé, um católico que quis ser jesuíta, ex-vice-presidente do Conselho de Estado, a quem foi entregue a coordenação desta comissão que junta mais 22 especialistas de diversas áreas, menos da Igreja. Todos tiveram apoio psicológico dada a violência daquilo que foram ouvindo. Os testemunhos mostram vidas interrompidas, com sequelas muito presentes, mesmo nos casos mais antigos.

Muitos agressores eram muito próximos das vítimas, com acesso privilegiado a suas casas e tidos como referência das famílias. Na comunidade, havia uma sacralização da sua figura, o que lhes dava uma dominação que ninguém ousava colocar em causa. Como denunciar quem tinha um poder quase divino? Impossível. Por isso, as vítimas foram sujeitas a uma espécie de morte psíquica, resultado de um silêncio autoimposto, que lhes desfez a vida para sempre. Enquanto crianças ou adolescentes, transformaram-se em objetos sexuais de predadores que chamavam a si um poder sobrenatural que lhes permitia uma cadeia de cumplicidades que, em algumas comunidades, se tornou sistémica.

As vítimas são sobretudo masculinas (62 por cento) e idosas: 30 por cento têm mais de 70 anos; 50 por cento entre 50 e 69 anos; e 20 por cento entre 30 e 49 anos. Estes números têm diferentes leituras: as denúncias dizem respeito a um tempo remoto por haver, nessa altura, mais clérigos e um domínio maior da Igreja na vida quotidiana. No entanto, também há outra linha interpretativa: os crimes são de tal ordem sensíveis que as vítimas demoram anos até terem coragem de denunciar...

Esta Comissão lançou agora um inquérito nacional para saber se nestes anos houve mais abusos sexuais no seio da Igreja do que na sociedade. Porque se quer avaliar em profundidade os comportamentos desviantes do país. Todavia, qualquer que seja o resultado, nada absolve estes crimes da Igreja. Mesmo para atos já prescritos impõe-se uma reparação. É preciso, pois, uma outra justiça para o íntimo. A Conferência Episcopal Francesa tem obrigação de agir perante tamanha atrocidade. Até para fazer justiça àqueles que, no seu seio, cumprem um magistério de forma imaculada.

Professora associada com agregação da Universidade do Minho

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