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Desconfinar no tempo certo

Desconfinar no tempo certo

Por estes dias, o espaço público (mediático) viu-se inundado de mensagens contraditórias sobre o tempo para desconfinar.

Os especialistas dividem-se, a sociedade civil organiza-se em grupos de pressão. No meio de tanto ruído, o Governo tem optado pelo silêncio. Compreende-se a opção, mas a partir de agora precisa de divulgar planos do que será feito. E comunicar isso de forma clara.

Até então, seria despropositado falar de desconfinamento. Portugal chegou a janeiro com números elevadíssimos de contágios, internamentos e mortes, resultantes da flexibilidade permitida nos meses anteriores e de uma comunicação vaga e instável que as fontes oficiais protagonizaram. Foi preciso travar a fundo.

Há um ano, os decisores políticos fizeram tudo bem. Decidiram atempadamente, comunicaram de forma clara e o país correspondeu àquilo que era solicitado, também algo motivado por um discurso noticioso que se uniu em torno do desígnio de orientar as pessoas para comportamentos preventivos. Com o verão, chegou o relaxamento e lá seguimos algo despreocupados rumo a um inverno que tão penoso haveria de ser. Aí, as restrições foram brandas e a comunicação revelou-se fatal. No tempo do pico da pandemia, até a Direção Geral da Saúde suspendeu as conferências de Imprensa...

A meio de janeiro, reacertou-se a estratégia. As decisões foram duras, mas necessárias. E comunicou-se isso bem, impedindo-se depois que se discutisse o desconfinamento. Não era ainda altura de desfocar, mas sim centrar a opinião na mensagem de que era mesmo vital ficar em casa. Porque o número de internamentos e mortes assim o reclama(va).

Segundo uma sondagem publicada ontem neste jornal, 80 por cento dos portugueses querem manter o confinamento, pelo menos, mais duas semanas e quase metade acredita que isso possa estender-se até à Páscoa. Porque ninguém quer ter mais réplicas desta vida. Neste contexto, o Governo tem de pensar muito bem a estratégia de desconfinamento. Há já propostas para se começar pelas escolas e fazer isso por regiões, certamente esquecendo que o calendário escolar e os exames são nacionais. Por isso, na educação, qualquer medida faseada terá sempre de abranger ciclos e não territórios.

Ouvindo cientistas, percebemos que há teses e antíteses relativamente às datas de desconfinamento. Aqui, a decisão é política. E deve estar bem sustentada cientificamente, bem estruturada ao nível do planeamento e bem pensada no ponto de vista da comunicação. O Governo tem de ser firme nas decisões, eficaz nas medidas e claro na mensagem. Porque ninguém aguentará uma quarta vaga.

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* Professora associada com agregação da Universidade do Minho

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