Opinião

É preciso salvar este ano letivo

É preciso salvar este ano letivo

Na próxima segunda-feira, as escolas públicas retomam as aulas de forma remota, após uma suspensão de duas semanas que poderia ter sido poupada, porque imobilizámos estudantes dentro de casa, descontinuando aprendizagens num tempo que não terá sido propriamente de ócio. Há ainda muitas decisões para tomar e espera-se, desta vez, mais celeridade. Para salvar o ano letivo.

Portugal não está preparado para o ensino remoto. Muitos alunos não têm computadores, uma parte das casas não dispõe de cobertura de rede e um número substancial de professores não adquiriu competências para ensinar em salas virtuais. No sábado, o suplemento Dinheiro Vivo explicava que os computadores prometidos no ano passado ainda não foram entregues aos alunos. Uma parte porque nem sequer foi contratualizada; outra parte porque, tendo-o sido, apenas chegará às escolas até finais de março. Conseguiu-se distribuir alguns, escassos. Portanto, o Ministério da Educação não foi capaz de prever atempadamente quer a possibilidade de um novo confinamento, quer as necessidades materiais que tal demandaria. Neste tempo, também não se investiu muito na formação de professores. Ensinar através de um ecrã pressupõe outras competências pedagógicas, outras metodologias, outras avaliações. Transpor métodos de ensino de uma sala real para um ambiente virtual é condenar uma aula ao fracasso. Há, pois, problemas de fundo que continuam por resolver. E que vão ganhar visibilidade mediática na próxima semana.

Neste complexo contexto, o Ministério da Educação não deve perder-se numa comunicação errática para defender o injustificável. Precisa, antes, de se centrar no essencial a fim de ajudar milhares de estudantes que se sentem perdidos numa instituição que é uma das principais âncoras de crescimento: a escola. Sabemos que os tempos são de incerteza e que as decisões são difíceis, mas deveria haver um esforço para anunciar rapidamente o calendário escolar até final do ano letivo, incluindo exames; multiplicar formas de apoio para alunos sem meios de aceder ao ensino remoto; reforçar aprendizagens daqueles que não atingiram competências mínimas; prestar uma atenção particular aos alunos que deixaram de ter contacto com a turma. É também necessário preparar o regresso ao modo presencial cuja data ainda ninguém é capaz de definir.

Nestes duros tempos de pandemia, as escolas souberam ser lugares seguros e os professores revelaram-se importantes apoios para alunos à deriva. Que o Ministério da Educação saiba acompanhar este trabalho e não tarde decisões.

*Prof. Associada com Agregação da UMinho

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