O Jogo ao Vivo

Opinião

É preciso valorizar a independência

É preciso valorizar a independência

Portugal é o país da União Europeia onde os jovens saem mais tardiamente de casa: aos 33,6 anos. Segundo dados do Eurostat, a média da UE é de 26,5 anos.

Poderemos explicar este retrato pela falta de condições para viver de forma independente, mas também deveremos acrescentar o peso de uma educação que subalterniza a autonomia dos mais novos.

Salários baixos, casas a preços insustentáveis, um custo de vida a disparar: eis variáveis que travam qualquer desejo de dar o grito do Ipiranga. Por isso, parece natural que os jovens adultos se mantenham até muito tarde em casa dos seus pais e adiem projetos de vida mais compatíveis com um estatuto de maioridade e independência, como ter filhos. Comprar ou alugar uma casa é hoje muito difícil para quem ganha um salário mínimo ou, pior, para quem não tem um contrato estável. Ora, isso é uma situação comum entre os mais jovens que não raras vezes vivem de estágio em estágio, sem qualquer remuneração. Portugal tem mesmo que priorizar mais apoios ao arrendamento jovem e criar outras condições de entrada no mercado de trabalho. Os dados do Eurostat reportam-se a 2021, ano em que a pandemia piorou as condições de vida de todos. Hoje, neste regresso pleno à normalidade, os cidadãos confrontam-se com uma galopante inflação que também não ajuda muito a inverter esta tendência...

PUB

Apesar deste contexto, convém não ceder a leituras demasiado amarradas a um presente que se enche de dificuldades. Há também que ponderar a forma como (não) educamos as nossas crianças para a autonomia. Desde muito pequenos, os mais novos crescem em ambientes muito protegidos que lhes amputam aprendizagens para uma vida independente. Nos primeiros anos de escolaridade, são conduzidos à escola e a várias atividades extracurriculares, criando-se a ilusão de vidas preenchidas, sem, no entanto, haver qualquer exposição a situações que exijam respostas autónomas. Quando crescem e criam as suas próprias redes de amizade, há sempre circuitos que têm a casa como posto de comando a partir de comunicações móveis que controlam (quase) tudo.

Lidando com jovens adultos em contexto de Ensino Superior há quase 30 anos, noto uma mudança radical de estilos de vida. Os jovens têm hoje diversões muito diferentes (e mais dispendiosas). É natural. Mas apresentam um grau de autonomia muito menor. E isso já é preocupante. Ainda que queiram ter vidas desligadas de controlos parentais, conservam com a família dependências financeiras cujo prolongamento não veem como um problema. E isso não é, no essencial, culpa deles. Resulta, antes e sobretudo, de uma tutela parental que vai aplanando o caminho, ocultando as pedras e subtraindo as dificuldades que os deveriam fazer crescer.

*Prof. associada com agregação da UMinho

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG