Opinião

E se o vírus fugiu mesmo do laboratório?

E se o vírus fugiu mesmo do laboratório?

Duas teorias estão em confronto sobre a origem da covid-19: a de uma transmissão natural animal-homem ou a de um acidente do laboratório de Wuhan.

Até agora, a primeira prevaleceu, mas, por estes dias, a hipótese de ter havido mão humana ganha defensores de peso.

A tese do grupo criado pela Organização Mundial da Saúde para investigar a origem do Sars-CoV-2 não vingou. Ontem, em conferência de imprensa, a presidente da Comissão Europeia disse que é preciso ter acesso a toda a informação para analisar a propagação deste vírus. "O Mundo tem o direito de saber exatamente o que aconteceu para poder aprender com o sucedido", secundou o presidente do Conselho Europeu. Também Joe Biden está interessado nessa investigação e, para isso, deu três meses aos serviços de informação americanos para encontrarem uma resposta bem sustentada. Nada disto agradará ao presidente chinês. A comprovar-se um descuido do laboratório de Wuhan, as tensões geopolíticas acentuar-se-ão profundamente. E a China ver-se-á obrigada a carregar nas costas uma das maiores calamidades da nossa História.

Por coincidência, ou não, as revistas "L"Express" e "NewStatesman" também avançavam ontem a possibilidade de o vírus ter saído do Instituto de Virologia de Wuhan. A publicação francesa arriscava mesmo que a tese da zoonose (infeção transmitida de animais para humanos) beneficiou da influência da revista médica "The Lancet", que constituiu uma equipa para pesquisar a origem da pandemia, entregando a coordenação desse grupo a Peter Daszak, que é também presidente da ONG EcoHealth Alliance, que conduz estudos destinados a evitar pandemias geradas por interações com animais e financia o trabalho de alguns laboratórios, entre eles do Instituto de Virologia de Wuhan. Daszak integrou também a equipa da OMS encarregada de investigar a origem do vírus Sars-CoV-2. Confrontado com estes eventuais conflitos de interesse, Daszak preferiu o silêncio. Mais disponível para falar esteve Didier Houssin, que presidiu à comissão da OMS. Disse que "a transmissão animal parece a hipótese mais provável", mas também acrescentou que talvez ninguém consiga saber como tudo se passou.

Talvez tenha razão. Uma investigação com livre acesso a tudo será decerto uma tarefa impossível. A revista "NewStatesman" fala esta semana de uma China entre o sigilo e o encobrimento, fortemente motivada em controlar o acesso a informação sensível e ativamente empenhada em transmitir uma imagem de um país confiável. Não será por acaso.

*Professora Associada com Agregação da UMinho

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