Opinião

Envolver mais os cidadãos, sem desresponsabilizar os decisores

Envolver mais os cidadãos, sem desresponsabilizar os decisores

A indicação que os especialistas deixaram quarta-feira no Infarmed foi clara: é preciso promover a autoavaliação do risco e intensificar os autotestes. A partir de agora, a responsabilidade centra-se em nós.

No entanto, isso não habilita os decisores políticos e as autoridades sanitárias a optar por soluções precipitadas. Como fazer sair os cidadãos do isolamento para irem votar.

Foi um erro estratégico Governo e Presidência da República terem introduzido na reunião do Infarmed o tópico do voto por parte de quem está em isolamento. Por várias razões: porque ninguém tinha ainda uma solução fechada; porque dispersou a mensagem dos peritos ali presentes; porque difundiu implicitamente a ideia de que poderemos sair de casa quando houver um motivo maior, ainda que estejamos infetados ou tenhamos passado por um contacto de alto risco. A ministra da Administração Interna pediu já um parecer jurídico urgente ao Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da República a propósito do tema. É certo que se impõe saber que restrições à liberdade de circulação existem, resultantes da determinação de um isolamento, quando estão em causa eleições. No entanto, antes disso, temos de esclarecer que riscos constitui para a saúde pública um infetado a circular por espaços comuns. Essa liberdade que agora se reclama tem outra faceta: a de afastar pessoas com fragilidades das mesas de voto por medo de contágio. Seria, pois, conveniente olhar para a realidade de forma integrada e encontrar soluções ponderadas.

Com os números de infetados a crescer avassaladoramente, abandonaremos as principais medidas de restrição nos próximos dias. Ora, este oxímoro só ganha forma na aparência, porque há uma linha vermelha sob escrutínio permanente: o número de internamentos, sobretudo em Cuidados Intensivos, e de mortes. Por outro lado, chegou agora a nossa vez de controlar mais a progressão deste terrível vírus. Dois anos de pandemia ensinou-nos muito sobre medidas de proteção e, acima de tudo, fez-nos compreender que o nosso descuido tem consequências terríveis para nós e para quem nos rodeia.

É claro que a responsabilização dos cidadãos não se processa por delegação automática. Por estes dias, Governo e Direção-Geral da Saúde devem intensificar a comunicação no sentido de transmitirem mensagens sobre procedimentos tão vitais como: a testagem regular, o que fazer quando se está positivo e com sintomas ligeiros ou se contactou com um infetado. Que ninguém pense que os próximos dias serão de tranquilidade...

*Prof. associada com agregação da UMinho

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