Opinião

Esperança...e muitas perguntas

Esperança...e muitas perguntas

É uma luz ao fundo do túnel aquela que o consórcio Pfizer-BioNTech e a empresa de biotecnologia norte-americana Moderna acenderam ao anunciarem a eficácia que as suas vacinas alcançaram nos ensaios clínicos agora em fase de conclusão. No entanto, há ainda muitas perguntas sem resposta.

Em nove meses, a ciência conseguiu criar uma tecnologia para fabrico de uma vacina anticovid com um índice de eficácia altíssimo. É um feito extraordinário. Outros testes estão em curso, sendo conveniente que estes anúncios não desmobilizem os voluntários envolvidos noutras experiências que poderão acrescentar conhecimento científico relevante. Apesar do reconhecimento que este colossal trabalho merece, há que ponderar outros ângulos de análise.

Em primeiro lugar, sublinhe-se que os resultados destas novas vacinas foram transmitidos não através da publicação de artigos científicos devidamente escrutinados, mas por meio de comunicados. Foram os laboratórios a comunicar os seus produtos, sem passarem pelo crivo da comunidade científica. Após a Moderna anunciar os 94,5% de fiabilidade da sua vacina, o consórcio Pfizer-BioNtech veio emendar os 90% já garantidos para 95%. Percebe-se bem o propósito de nova precisão...

É verdade que houve uma explosão de otimismo à escala global, mas precisamos de dosear esse entusiasmo, porque há muitas questões a esclarecer. Por exemplo: o que sabemos nós exatamente? Estas vacinas protegem-nos contra as formas da doença mais ligeira ou mais severa? São capazes de impedir a transmissão do vírus? Durante quanto tempo nos protegem? Revelam-se eficazes para todas as pessoas? No meio dos esclarecimentos necessários, há que convencer também os cidadãos acerca da importância desta vacinação. Em muitos países, incluindo Portugal, há uma percentagem considerável de pessoas que vêm manifestando um crescente ceticismo em relação a este modo de prevenção do SARS-CoV-2.

Depois das descobertas científicas, há outros desafios a vencer: de produção, de conservação, de distribuição, de aplicação... E existe ainda um debate ético para fazer: a vacinação deve, ou não, ser obrigatória? Estamos no limiar de um processo que vai demorar alguns meses a dar os primeiros passos. Por enquanto, temos uma certeza: o inverno vai ser longo. E muito duro. Mais do que na primeira onda, precisamos de medidas rápidas e cirúrgicas para zonas particularmente fustigadas. Porque o milagre que as vacinas anunciam não é para já.

*Prof. associada com agregação da UMinho

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