Opinião

Exames digitais: a revolução

Exames digitais: a revolução

O Ministério da Educação prevê passar as provas de aferição e os exames finais para formato digital. Será algo progressivo, mas que implica uma mudança estrutural da aprendizagem. Porque provas desta natureza não poderão ser feitas maioritariamente em forma de resposta múltipla.

Em 2023, 2.º, 5.º e 8.º anos realizarão em computador as provas de aferição e o 9.º ano apresentará os exames finais também nessa modalidade. Poder-se-á dizer que o contexto pandémico proporcionou grandes aprendizagens no domínio da informática. É um facto. Mas esse tempo não habilitou os estudantes a desenvolverem exames em computador. Pensemos numa prova de português, que testa, por norma, competências de interpretação e de produção textual. Fazer isso através do teclado de um computador implica treino. Muito treino. Que deverá ser feito a partir de manuais que terão de incorporar conteúdos digitais, sem menosprezar a escrita manual. Porque seria um erro colossal arrumar a um canto destrezas para manusear um lápis ou uma caneta.

É com mudanças de fundo que se construirá o futuro: no material escolar disponibilizado a discentes e a docentes, nos conteúdos programáticos preparados pelas editoras, na aprendizagem dentro da sala de aula, nas competências informais desenvolvidas em tempos extracurriculares. Avançar para provas digitais será um passo natural de uma evolução tecnológica que tomou conta do quotidiano nas suas diversas dimensões. Fazer entrar o computador na sala de aula naturalizará consumos que hoje se fazem, demasiadas vezes, em margens de risco.

Todavia, há também que reconhecer que avançar muito depressa para estes patamares pode deixar um grupo substancial de alunos para trás. Falo daqueles para quem o uso de um computador é estranho, mesmo que a escola disponibilize um portátil.

Há muito que as teses do determinismo tecnológico suscitam desconfiança da comunidade científica. O advento e o reforço da tecnologia não operam mudanças automáticas, se não se atender devidamente aos usos que delas se faz. Seria, pois, aconselhável que o Ministério da Educação levasse a sério este ceticismo e, a partir dele, intensificasse a formação digital dos professores para melhor ensinar práticas que facilitassem o domínio de um teclado.

Há muito que a escola, sobretudo a pública, constitui um elevador social para muitos de nós. A pandemia, e o consequente ensino remoto, provocou algumas avarias nessa subida. Convém, pois, que o digital ajude a garantir essa importante função social.

Professora associada com agregação da UMinho

PUB

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG