Opinião

Fechar os cemitérios a 1 de novembro? Claro que sim!

Fechar os cemitérios a 1 de novembro? Claro que sim!

Quem já viu partir familiares muito próximos saberá que ir ao cemitério levar flores ou velas dá algum conforto a uma dor sempre avassaladora.

Consola estar ali, em silêncio. Esse recato transforma-se em agitada romaria em datas de Todos os Santos e de Finados, iniciando-se esse frenesim uns dias antes com a limpeza de campas e arranjos de flores. Ora, esses ajuntamentos têm de ser rapidamente travados e isso apenas se consegue fechando esses lugares.

Visitando os cemitérios por altura de Todos os Santos, nem sempre se calculará que, dias antes, há sempre muita gente aí. Faz-se uma espécie de limpeza anual das campas, partilhando-se baldes, garrafas de água, vassouras... Com frequência, os fontanários ficam à míngua, dada a afluência de tantas pessoas que ali estão com um regador na mão, sempre partilhado com quem precisa. Não se conversa muito, mas cada um sente-se acompanhado na sua dor por aqueles que, ao lado, limpam as campas ao mesmo tempo que enxugam as lágrimas. Cada um destes gestos comporta hoje riscos colossais, sobretudo quando sabemos que são maioritariamente idosos quem se ocupa destas tarefas.

Chegado o dia 1 de novembro, as romarias tornam-se inevitáveis e este ano os ajuntamentos são ainda mais propícios, quando se repara que a data coincide com o domingo. Não chega a Igreja e as autarquias pedirem moderação. Quem se desloca ao cemitério nesse dia sabe que há famílias que permanecem aí largas horas e sabe também que as pessoas se tocam e se abraçam, pois há um assalto emocional à espera de amparo. É preciso também antecipar que um grande número de pessoas vai retirar a máscara, porque, quando se chora, isso implica assoar o nariz, limpar a cara, esfregar os olhos, gestos que decerto petrificam qualquer autoridade sanitária.

Fechar os cemitérios nos dias de Todos os Santos e de Finados é uma decisão difícil, mas necessária, se a salvaguarda da saúde pública for efetivamente um bem maior. Nesse tempo, podemos encontrar outras formas de nos ligarmos a quem já partiu e tanta falta nos faz, aproveitando depois o resto do ano para fazer visitas. Dizer que as pessoas precisam de ir ao cemitério nestes dias ou é demagogia ou significa um desconhecimento dos fios de eternidade que se tecem com quem fisicamente não está connosco, mas que continua sempre no nosso coração. E se as autarquias não tiverem o bom senso de encerrar os cemitérios, a autoridade da saúde nunca poderá acompanhar tamanha irresponsabilidade.

Professora associada com agregação da Universidade do Minho

Outras Notícias