Opinião

Francisco, um Papa incapaz de reformar a Igreja

Francisco, um Papa incapaz de reformar a Igreja

Havia uma certa expectativa relativamente à exortação apostólica que surgiria como corolário do sínodo dos bispos que decorreu em Roma entre 6 e 27 de outubro, mas os 111 parágrafos do texto "Querida Amazónia", escritos pelo Papa Francisco, mostram uma Igreja incapaz de se reformar.

Não há qualquer porta aberta para o fim do celibato dos padres, nem tão pouco sinais para a instituição do diaconado feminino.

A Igreja Católica tem uma gigantesca dificuldade em promover uma revolução doutrinal. Setores mais conservadores controlam com mão férrea o Vaticano e nem mesmo um Papa com o perfil do argentino Jorge Mario Bergoglio tem conseguido ultrapassar esse domínio. É claro que poderíamos atirar para o domínio do inverosímil a ordenação sacerdotal de homens casados, mesmo que isso correspondesse a uma exceção criada para as regiões do globo mais carenciadas de padres, como a Amazónia. É muito difícil a Igreja dar esse passo. Por várias razões. Porque isso colide com uma doutrina mais tradicionalista, põe em causa um património que se preserva de forma cumulativa e porque, na verdade, mexe com dogmas inabaláveis, por exemplo a aceitação do divórcio e, pior ainda, dos recasados. Imagine-se se um padre casado decidisse, a determinada altura, pôr fim ao seu matrimónio...

No entanto, há outros modos de equacionar este tema. A Igreja Católica continua a confrontar-se com uma grave crise de vocações, também tributária das exigências feitas a quem quer servir o próximo, mas se sente incapaz de uma abstinência sexual para a vida toda. Por outro lado, hoje os leigos vivem a sua fé de outro modo e, decerto, seria mais profícuo encontrarem na sua paróquia alguém com uma experiência de vida mais próxima dos problemas reais que uma família enfrenta no seu quotidiano...

Há ainda a questão do diaconado feminino e aqui devo reconhecer que tenho uma colossal dificuldade em entender o atual rumo da Igreja Católica cuja fé professo. O papel da mulher continua circunscrito a uma menoridade difícil de aceitar. Nesta exortação apostólica, o Papa Francisco fala da necessidade de estimular o "aparecimento de novos serviços e carismas femininos", mas deixa claro que esses trabalhos não passarão pela ordenação sacerdotal. Eis aqui uma limitação que tira futuro a uma Igreja que precisa urgentemente de outros caminhos para atrair para si leigos que se sentem cada vez mais descrentes desta doutrina que os homens do Vaticano insistem em manter.

Professora Associada com Agregação da Universidade do Minho

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