Opinião

Guerra civil nas estradas portuguesas

Guerra civil nas estradas portuguesas

Não precisamos de exaustivos relatórios para saber que a sinistralidade nas estradas portuguesas continua preocupante. É, pois, urgente acentuar sanções, desenvolver campanhas de prevenção e aprofundar o tema nas escolas. Porque há (muitas) mortes a evitar.

Em 2018 morreram nas estradas portuguesas 675 pessoas no período de 30 dias após o acidente em que estiveram envolvidas. Mais 73 do que em 2017. Estes são números da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária. Este verão, as notícias sobre mortes rodoviárias intensificaram-se. Na quarta-feira, o "Jornal de Notícias" titulava em primeira página "álcool nas trotinetas". Há inegavelmente um problema grave no modo como circulamos no espaço público e isso deveria suscitar um amplo debate nacional. Porque temos uma verdadeira guerra civil em curso nas ruas e estradas no país.

Citemos o caso suíço. Aí há um controlo rígido da circulação em estradas, havendo radares nos lugares mais inesperados a funcionar em permanência. As multas são elevadíssimas, podendo ascender a milhares de euros. Sem perdão. Consequência: ninguém ousa infringir qualquer regra. Cada um sabe que não tem margem de manobra para a infração e isso faz a diferença. Há também uma espécie de osmose comportamental que se sente quando se conduz um carro, mesmo nos recantos mais isolados da belíssima Suíça.

Por cá, a circulação nas autoestradas mais parece uma corrida de Fórmula 1, em que alguns automobilistas tomam a faixa da esquerda só para si e fazem uma espécie de voo rasante sobre o asfalto. Optar por estradas nacionais ou municipais é ver em contramão veículos a calcar ostensivamente linhas contínuas e a arriscar ultrapassagens que nos atiram para as bermas. Nas cidades, o tráfego também se faz carregando o mais possível no acelerador. Residindo numa das avenidas de Braga, fico boquiaberta com o modo como certos automobilistas circulam na minha rua que, por acaso, fica perto de duas escolas.

É preciso, pois, tomar medidas. Nas estradas nacionais, é necessário controlar mais e de forma efetiva. Nas cidades, é imperioso desenvolver políticas que coloquem os peões em segurança, limitando a velocidade, colocando lombas nas ruas mais extensas ou criando rotundas. Seria também útil pensar de forma integrada as novas formas de micromobilidade. Os autarcas não se podem excluir desta responsabilidade, continuando a pensar que estas são medidas impopulares. Porque há mortes que podemos evitar. Com outras políticas e, sobretudo, com outros comportamentos.

* PROFESSORA ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UNIVERSIDADE DO MINHO

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