Opinião

100 dias de Governo nos jornais

100 dias de Governo nos jornais

O primeiro-ministro não tem razões para se queixar da Imprensa. Nos primeiros 100 dias de Governo, viveu o estado de graça dos políticos em início de funções, encontrando uma abordagem positiva em mais de metade dos artigos noticiosos que refletiram a atividade governativa. No entanto, António Costa tem um problema: a atualidade esteve sempre muito presa às finanças e os jornalistas evidenciam uma clara preferência por essa tematização. Será difícil retirar do espaço público mediático um tópico que se enraizou de forma profunda ao longo dos últimos anos.

A ideia nasceu nas aulas de Jornalismo Especializado do 2.º ciclo em Ciências da Comunicação da Universidade do Minho. Aí, desafiei os estudantes a olhar para os textos noticiosos que os jornais diários (JN, DN, Público e CM) publicaram nestes 100 dias de governação e que tinham os governantes como protagonistas dos acontecimentos. A metodologia de análise seria quantitativa, feita a partir de uma taxonomia de análise que desenvolvi em 2008 para estudar os artigos jornalísticos de saúde, uma grelha que, naturalmente, teve de ser alvo de algumas adaptações. Pretendia-se, por um lado, perceber como os jornalistas tratam o campo político numa área estruturante do jornalismo, a da política governativa, e, por outro, seguir a agenda desenhada pelo Governo e recriada em permanência por outros atores. São quase mil textos em análise, ou seja, em média, cada jornal publicou 2,5 artigos por dia. E 43 por cento apresentam-se com uma extensão de mais de meia página. Foi grande a atenção que as redações consagraram ao Governo, fazendo recair sobre essa cobertura noticiosa um olhar positivo. Os governantes não podem, pois, acusar os jornalistas de verem sempre o copo meio vazio...

Percorrendo os textos, nota-se um certo domínio da agenda por parte do Governo. Mais de 40 por cento do noticiário é feito a partir de eventos previamente marcados (reuniões, sessões na Assembleia da República, conferências, visitas...), 30 por cento dos textos refletem situações em curso (e, portanto, de desenvolvimento conhecido), 10 por cento resultam de comunicados (sendo essa percentagem seguramente superior, na medida em que muitas missivas dos gabinetes ministeriais não são explicitadas nas peças). Os jornalistas precisam, pois, de ganhar outra autonomia e de se soltarem de uma tematização que se declina de forma hegemónica a partir das finanças. É verdade que a aprovação do orçamento retificativo, a discussão do programa de Governo, a resolução do caso Banif e o novo Orçamento empurraram a noticiabilidade para este "frame", mas também é um facto que os jornais se habituaram a mediatizar este campo privilegiando a política financeira que trouxe os jornalistas das secções económicas para a área política, instalando aí uma determinada perspetiva. Será difícil no futuro próximo criar agendas alternativas, mas isso seria imprescindível para respirar a partir de outros domínios a vida de todos dias.

Para além dos temas, a análise procurou identificar as fontes de informação. As mais solicitadas são, naturalmente, as oficiais e aí há um óbvio protagonismo do primeiro-ministro e do ministro das Finanças, governantes que não necessitam de atrair a atenção dos jornalistas. Os média noticiosos acompanham-nos em permanência. Precisam apenas de comunicar com eficácia. Depois há ministérios com grande visibilidade pública e com estratégias díspares de comunicação. Por exemplo, o Ministério da Educação esforçou-se por neutralizar polémicas que aqui e ali se reacendiam em permanência, enquanto o Ministério do Saúde, poupado a críticas, serviu-se deste tempo para anunciar sucessivas políticas em ambientes controlados e secundados por uma assessoria que ia complementando informação dada pelos governantes.

Olhados através dos jornais, estes 100 dias de governação não correram mal. O presidente da República esteve sempre em silêncio e os atores que emergiram (deputados e sindicatos) não atrapalharam (muito). Não será assim a partir de agora e o balanço a fazer do Governo passará seguramente por aquilo que os média refletirem.