Opinião

Não somos trabalhadores?

Não somos trabalhadores?

As estatísticas, persistentes, são pouco lisonjeiras para os portugueses. Trabalhamos muitas horas, mas rendemos pouco. Atrás de nós, apenas os islandeses, os letónios, os polacos, os russos e os gregos passam mais horas no emprego. E nem por isso apresentam maior produtividade. O que está a falhar?

Num extenso dossiê dedicado ao trabalho, a revista "Courrier Internacionale" publicava ontem dados da OCDE que nos envergonham. É certo que não trabalhamos tanto como nos anos 70, mas ainda passamos a maior parte dos nossos dias ocupados com o emprego. À nossa frente, há uma longa lista de países onde se trabalha menos. E melhor. A liderar o grupo daqueles que menos tempo passam no seu emprego, estão a Alemanha, os Países Baixos, a Noruega, a Dinamarca e a França. Países com economias competitivas. Significa isso que precisamos de repensar o modo como gerimos o que fazemos. Porque está aí parte da explicação destes resultados, embora haja condicionantes externas a cada um de nós que convém não negligenciar.

Contratos precários, baixos salários, lideranças ziguezagueantes, redes organizacionais pouco competitivas... Eis variáveis que nos ajudam a interpretar dados que nos apresentam como gente que trabalha muito e produz pouco. A estes elementos, há que acrescentar uma insuficiente motivação pessoal, uma aprendizagem débil em focar o que interessa e, claro, a invejazinha tão portuguesa que se entretém em multiplicar entropias nos caminhos alheios.

O problema deve começar a ser pensado a montante dos nossos percursos profissionais. É na escola que deveríamos aprender a trabalhar, ou seja, a inovar, a focar em determinados objetivos, a resistir à adversidade quando estão em causa os nossos projetos de vida, a reinventar caminhos de progressão... A escola portuguesa não promove estas aprendizagens e os milagres não acontecem quando passamos à prática.

Também é verdade que as próprias instituições podem ser lugares de construção de verdadeiros labirintos onde o trabalhador mais exemplar desespera. Veja-se o caso das universidades públicas portuguesas. Aí um professor universitário tem como missões estruturantes do seu trabalho gerar, difundir e aplicar conhecimento. Todavia, no seu dia a dia, a sua atenção dispersa-se por um impensável número de reuniões improdutivas. Para dar uma ideia de pluralismo, de participação e de transparência, o Ensino Superior criou um conjunto de órgãos que se atropelam em competências: conselhos científicos, conselhos pedagógicos, comissões coordenadoras, conselhos de departamento, senado, centros de investigação, direções de cursos... Nas reuniões que aí se promovem, não se fecham processos, porque há sempre uma instância superior para onde o caso há de ser remetido. Também não se discute o que importa, porque a universidade portuguesa está cheia de subserviências que calculam milimetricamente o que pode ser dito. Por isso, o tempo que aí se gasta não serve para muito. Acrescente-se a esse calvário das reuniões a obrigação permanente de preencher dados impensáveis num dedálico universo de plataformas digitais que teoricamente controlam os gastos de cada docente/investigador. Como ser produtivo neste tipo de contextos? E para aqueles que acham que isto só acontece no sector público, as estatísticas nacionais mostram que o fenómeno é transversal, já que as empresas privadas apresentam, também elas, produtividades que as envergonham face às congéneres europeias.

Poderemos falar igualmente de comportamentos que se foram institucionalizando em práticas sociais subtrativas da produtividade. O fenómeno mais recente é o Facebook. Certas pessoas passam aí parte do dia. Será, decerto, legítimo interrogarmo-nos em que momento trabalharão... Há ainda as chamadas telefónicas internas apenas para conversar com os colegas ou os intervalos que se improvisam para um cigarro, para um café ou para uma troca de impressões onde rapidamente se mistura o trabalho com temas pessoais.

Em Portugal, focar na missão da organização pode transformar-se, com alguma frequência, num ato de impopularidade entre os pares. Assim é difícil!

* PROFESSORA ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UNIVERSIDADE DO MINHO