Opinião

Os afetos do presidente

Os afetos do presidente

Tinha sido assim em Pedrógão Grande após 17 de junho. Voltou a ser assim depois dos incêndios de 15 de outubro em várias regiões do Centro do país. Sem vistosas (e dispensáveis) comitivas, o presidente da República esteve no terreno, ao lado daqueles que necessitavam de mais apoio. Era a figura política com mais condições para se constituir como elo de ligação de um país a desmoronar a partir de regiões muito fragilizadas, mas a verdade é que Marcelo não falhou nos afetos. Agora, faltará conhecer os bastidores políticos desses duros dias.

Desde sempre, Marcelo Rebelo de Sousa foi um político. Desde sempre, fez parte da elite da capital influente. Mas este presidente da República sabe que a sua força não está entre os seus pares. Está no povo. É o povo quem lhe dá força e poder. E isso não é algo que Marcelo ignore. Mesmo em momentos protocolares, os portugueses e a pátria são realidades discursivas omnipresentes. "Por isso, aqui estou. Pelo Portugal de sempre", concluiu na sua tomada de posse. Num discurso de oito minutos, em pleno Terreiro do Paço, no seu primeiro 10 de Junho como PR, proferiu um dos seus maiores louvores ao povo lusitano: "quando a pátria é posta à prova, é sempre o povo quem assume um papel determinante". Prolongando essas comemorações em Paris para condecorar quatro "gardiens" portugueses que ajudaram as vítimas do atentado terrorista do Bataclan, confessava que aquelas pessoas "são dos melhores de nós".

As referências aos portugueses enquanto nação constitutiva de uma identidade de que todos se devem orgulhar têm sido um elemento persistente nas intervenções deste presidente, prolongadas em expressivos e calorosos gestos que manifesta em relação a gente anónima. De braço estendido fora do carro oficial acenando a quem está ali para o ver, de lábios prontos para beijar quem com ele se cruza na rua ou disponível para uma selfie, eis um homem que impõe uma outra interpretação do cargo que representa. E que atinge hoje uma incalculável popularidade. Mais entre os portugueses do que no campo político, convém sublinhar. Mas este presidente, que chegou a Belém dispensando o apoio do seu próprio partido, também quer que assim seja. Porque isso dá-lhe liberdade, confere-lhe poder e garante-lhe votos num futuro próximo.

Neste tempo, Marcelo colocou sempre o povo à frente dos políticos. No entanto, talvez não fosse exatamente nos portugueses que pensou quando, à margem de uma visita ao Exército no Comando das Forças Terrestres da Amadora, a 24 de maio de 2016, disse premonitoriamente que, embora "um Governo exista para durar uma legislatura", haveria "claramente um ciclo político marcado pelas eleições autárquicas", ou seja, depois de outubro de 2017. Numa linha temporal com mais de um ano, Marcelo terá calculado mal a resiliência do PSD na Oposição e o trabalho do PS na manutenção de uma invulgar solução governativa. E não imaginou a possibilidade de tão grande tragédia como a dos incêndios. Todavia, esses fatídicos acontecimentos abriram diante de si uma possibilidade prática de ação que reforçou o seu lugar no xadrez político nacional. E abriu um outro patamar na relação com o Governo. Porque aquilo que se passou fora do olhar público poderá não coincidir com aquilo que se viu.

Não serão fáceis estes tempos para o primeiro-ministro e para a sua equipa que, por estes dias, regressaram em peso às regiões devastadas pelos fogos. Marcelo Rebelo de Sousa, entretanto, viajou para os Açores, mas, logo à chegada, lembrou que estamos agora numa "nova fase", esperando os portugueses que Governo e partidos políticos estejam à altura das elevadas expectativas quanto à reconstrução do país destruído. Aí está o presidente da República a colocar-se onde sabe que a sua legitimidade sairá sempre reforçada: ao lado do povo. Falta aqui observar como será, a partir de agora, o relacionamento entre Marcelo e Costa, principalmente depois de se conhecer o novo presidente do PSD. Aí, talvez se inaugure uma outra fase, essa talvez ainda mais decisiva para aquilo que poderá acontecer em 2018. Porque este presidente dos afetos não faz nada por acaso.

* PROFESSORA AGREGADA COM ASSOCIAÇÃO DA UNIVERSIDADE DO MINHO