Opinião

25 anos de TV privada

"Estudantes em luta contra as propinas". Há 25 anos, a SIC iniciava as suas emissões, a meio da tarde, com um bloco de notícias irreverente em relação aos poderes instituídos, inovador na linguagem e criativo na imagem. A partir daí, fortaleceu-se um sistema mediático televisivo que se assumiu como contrapoder em relação a vários campos sociais. Aos poucos, esse dinamismo, que durou uns bons anos, tem vindo a esbater-se. Com reflexos claros na vitalidade do espaço público nacional. Está na hora de fazer outra revolução no audiovisual.

A TSF apareceu em 1988 e revolucionou os ritmos da informação, "O Independente" surgiu no mesmo ano e destruiu a ideia de oásis que tínhamos do cavaquismo, o "Público" chegou em 1990 e tornou possível um jornalismo de profundidade feito num jornal diário, a SIC foi inaugurada em 1992 e prometeu mudar tudo. Mesmo antes de iniciar as suas funções, o canal assumiu uma estratégia de confronto com o Canal1 da RTP, que Pinto Balsemão encarava como o verdadeiro adversário. Era também esse o entendimento do diretor de Informação e Programação, Emídio Rangel, que falava da estação generalista pública como uma concorrente, em relação à qual tecia duras críticas. O canal de Carnaxide queria impor-se e, para isso, criou vários pontos disruptivos com a ordem estabelecida. Em primeiro lugar, com o poder político vigente. Até 1995, o primeiro-ministro Cavaco Silva e o seu Governo, completamente inexperientes perante uma força mediática com uma inesperada agressividade jornalística, protagonizaram em público inúmeras disfuncionalidades. Vejamos um exemplo.

Poderia ser uma mera manifestação popular contra uma decisão do Governo, mas os protestos relativos ao aumento das portagens da Ponte 25 de Abril, ocorridos a 24 de Julho de 1994, foram, acima de tudo, um sinal do poder de influência da televisão. Com transmissões diretas a partir do palco dos acontecimentos, as estações generalistas, com a SIC a liderar a cobertura jornalística, ampliaram o "buzinão" dos condutores; isolaram num plano aproximado um indivíduo espancado pela Polícia antimotim; deram voz ao descontentamento popular em relação ao poder executivo; ouviram os políticos da Oposição que, aproveitando a presença dos jornalistas, conquistaram um palco privilegiado para uma pré-campanha eleitoral... Passados poucos dias, o primeiro-ministro Cavaco Silva desloca-se ao Norte e, perante uma pergunta aparentemente inocente de um repórter da SIC acerca do que faria se estivesse sentado ao volante do seu carro no meio da ponte no dia dos protestos, responde que teria sido capaz de buzinar. A "boca" isolada numa peça de televisão, colocada no topo do alinhamento do Jornal da Noite, deitava por terra uma decisão política apresentada até ali como irreversível.

Também no entretenimento houve mudanças profundas. Em frente do ecrã televisivo, mudamos os nossos gostos. E os nossos hábitos. Com uma programação que foi dilatando o horário nobre, eis que nos deitamos cada vez mais tarde. Porque a grelha televisiva assim nos foi impondo. Nestes 25 anos de televisão privada, o audiovisual português constituiu uma força motriz da mudança em vários campos sociais. Eficaz, porque parecendo sempre funcionar como espécie de espelho das nossas vidas, embora tantas vezes fosse sobretudo uma parte estruturante do que somos.

Passaram 25 anos. Fez-se muito. Mas falta fazer muito também. Agora, precisamos que as televisões estejam também na linha da frente do desenvolvimento digital. Os teóricos que estudam a televisão há muito que anunciaram a pós-televisão. No entanto, este ambiente de convergência de ecrãs continua a ser ainda uma promessa por cumprir. Não há trabalho contínuo para conteúdos nativos digitais, não há uma efetiva participação e integração dos cidadãos aí. A tal ágora eletrónica é uma espécie de terra prometida aonde ainda não chegamos. Esta semana, em Lisboa, procurou-se discutir para onde vai a TV que temos. Presidentes da RTP, SIC e TVI, diretores de Informação e responsáveis pela Programação concordaram que qualquer caminho passará sempre por uma aposta no digital. Não chega. Precisamos de ação. Talvez mesmo de uma revolução.

* PROFESSORA ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UNIVERSIDADE DO MINHO