Opinião

A campanha do costume

É cansativo seguir uma campanha eleitoral em Portugal. Porque é pouco inovadora, muito encenada e centra-se em temas que interessam sobretudo aos políticos e aos jornalistas. Os cidadãos são deixados do lado de fora. Faz-se uma campanha para os portugueses e nunca com eles, embora os candidatos garantam o contrário. É falso.

Não haverá ninguém que consiga explicar, sem nos provocar um sorriso benévolo ou uma enorme irritação, o que leva uma candidatura a um mercado, a uma feira, a uma festa popular... Não se vai lá para explicar um programa eleitoral, nem tão-pouco para ouvir os que por lá andam... O principal mote deste tipo de deslocação é encenar um momento de uma aparente popularidade e ostentar uma fugaz euforia que a comitiva se encarrega de construir, criando um efeito do real, vazio de referente. Quem pertence a esses lugares aprecia pouco estas visitas, mas os políticos também não estarão muito interessados nos estados de alma daquelas gentes. Importa é que os jornalistas captem esse pseudoentusiasmo.

Na próxima segunda-feira arranca oficialmente a campanha eleitoral. Que há muito está na estrada. Até à véspera das eleições, os políticos darão novamente a volta ao chamado país real. Fazem isso, sem ver o que interessaria. Ao seu redor, vão estar os autarcas locais à procura de uma projeção nacional, os militantes à espera que lhes sobre um lugar em qualquer instituição pública e um número significativo de jornalistas que arrasta consigo uma parafernália de microfones, câmaras, telemóveis, tablets... Os residentes não têm muitas oportunidades para conversar com aqueles que elegem. Podem dar beijinhos e abraços. Disso eles gostam e precisam para que as imagens façam refletir uma certa proximidade. Que, na verdade, não existe.

Poder-se-ia considerar que o digital poderia abrir uma porta que a campanha tradicional persiste em manter fechada. E bem protegida. A do diálogo aberto com os candidatos. Acontece que os sites e contas sociais, apesar de terem evoluído bastante ao nível do design e conteúdos selecionados, pouco progrediram no que diz respeito à interatividade. Sente-se que os candidatos olham ao longe para o universo digital. Reconhecem-lhe virtualidades, mas ainda não aprenderam os códigos que os habilitem a movimentar-se aí com o mesmo treino que evidenciam nos tradicionais palcos mediáticos. Nesta campanha, sobressai ainda a suspeição de um expressivo número de perfis falsos que terão sido criados para fazer uma velada contraofensiva ao adversário... E aí está o lado negro que sobressai sempre em cada campanha eleitoral.

Enfrentando dias decisivos, as caravanas que estão na estrada vão ter como principal ponto de mira os media noticiosos, procurando que estes espelhem de forma o mais positiva possível todas as suas ações de campanha. A comitiva de jornalistas que acompanha em permanência as principais candidaturas garante-lhes esse tempo de antena. Mas esta era a altura de começar a inverter papéis, colocando do lado dos media mais protagonismo na seleção daquilo que importa cobrir. Os partidos e movimentos políticos podem não estar muito interessados nisto, mas os cidadãos ganhariam se a agenda noticiosa, em tempo de campanha, seguisse menos o que o staff das candidaturas prevê e surpreendesse mais os candidatos com inesperados ângulos de reportagem.

Um jornalista não é um pé-de-microfone, nem deve fazer parte integrante da comitiva que os candidatos fazem circular pelo chamado país real. A pergunta aqui é a de saber quem terá coragem de quebrar este ciclo viciante e organizar uma cobertura eleitoral que apresente alguma autonomia em relação à agenda construída pelas máquinas partidárias. Quem o fizer e conseguir criar uma agenda alternativa de qualidade terá a vantagem de liderar um processo de mudança que tanta falta faz. Temos jornalistas para esta empreitada. Os jornalistas que seguem a política são de indiscutível qualidade. Haja iniciativa, autonomia e meios para isso.

*PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO