Opinião

A cegueira das elites

Depois da crise das massas, chega agora a crise das elites. Com efeitos devastadores sobre a democracia. A sociedade dos indivíduos não se sente representada por aqueles que estão no poder e procuram agora novas formas de conquistar influência. Muito perigosas.

Não foi muito arguto o discurso de Hillary Clinton quando, no início deste mês, num evento de angariação de fundos em Nova Iorque, resolveu dizer que metade dos apoiantes de Donald Trump eram "deploráveis". Sentiu-se aí censura ao perfil de votantes no adversário, mas a candidata democrata não pode apagar a realidade com a sua retórica. Esses "deploráveis" de que fala são também os alemães que votam na Alternativa para a Alemanha, os franceses que apoiam a Frente Nacional, os defensores do Brexit que expulsaram o Reino Unido da União Europeia, os austríacos que patrocinam o Partido da Liberdade da Áustria... São gente antielite que existe cada vez em maior número e que exige uma grande atenção da ação política que os candidatos querem imprimir aos seus países. Mais do que excluí-la do debate público, há que encontrar caminhos de integração. Esse é um grande desafio que os políticos não têm conseguido vencer.

Atendendo às eleições que vão sendo feitas em diferentes geografias ocidentais, repara-se que os eleitores tendem a rejeitar a atual classe dirigente, quer expressando nas urnas o seu voto em partidos alternativos, quer optando pela abstenção. É um facto que as elites tradicionais perderam centralidade e isso deve-se a um longo período de uma aflitiva cegueira em relação às mutações sociais. Na semana passada, o "Courrier Internacional", num extenso dossier dedicado a este tema, escrevia que as nossas elites nunca foram cosmopolitas. Fecharam-se antes num reduto completamente impermeável às vivências das massas que, neste tempo, foram sofrendo as consequências de uma enorme crise económica que lhes subtraiu salários, pensões, direitos sociais e capacidade de escolher o seu destino. E perante tamanha deriva, os governos de diferentes países não souberam controlar a situação, o que aprofundou mais as clivagens.

Num entrevista publicada ontem na revista francesa "L"OBS" que escolhe para tema de capa as desigualdades, o prémio Nobel da Economia Angus Deaton defende que este problema não se resolve com soluções técnicas, porque as questões, na sua perspetiva, não são puramente económicas. Implicam, antes, o desenho de um projeto de sociedade que queremos construir. Por isso, há uma dimensão política a explorar. Citado na mesma publicação, o reputado economista francês Thomas Piketty aponta dois caminhos: dar um passo em direção às ideias de Esquerda para construir um modelo de integração social ou encorajar as crispações identitárias, tornando os imigrantes bodes expiatórios de tudo. Acrescenta o autor do livro "O capital no século XXI" que não é a primeira via que tem sido escolhida... E não é difícil encontrar nos atuais discursos políticos vários exemplos disso.

E perante uma crise que todos agora reconhecem existir, eis que vemos as nossas sociedades mergulharem numa perigosa deriva. Conhecido pela sua moderação e otimismo, Deaton defende que há uma democracia instalada que é preciso deixar funcionar. É nisso que o discurso dominante quer apostar, mas a verdade é que os sistemas democráticos estão a abrir profundas brechas. E os autores de tal empreitada foram, num primeiro momento, desajeitadas elites que tomaram de assalto o poder com a ideia de consolidar a sua influência, pouco se importando com a base social. A este nível, os banqueiros são o grupo que mais sobressai e sobre o qual começam agora a recair impiedosas censuras.

A grande questão agora é saber que novo paradigma social podemos nós construir frente a uma sociedade desesperançada no futuro. Para grande parte de nós, já não estamos perante o desafio de entrar no elevador social à procura de melhores condições de vida, mas de encontrar formas para lutar contra a descida das escadas que obrigam muitos a sair pela porta traseira das grandes metrópoles para serem despejados em periferias que criam guetos ameaçadores para todos. E isso cria um lastro demasiado perigoso para a sobrevivência das nossas democracias.

PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO