Opinião

A dança dos presidenciáveis

A dança dos presidenciáveis

Estão praticamente definidos todos os candidatos à Presidência da República. Ontem, desistiram Rui Rio e Alberto João Jardim. O primeiro não quer criar divisões no PSD, o segundo não quer protagonizar "quixotismos". Faltou acrescentar que nenhum deles sentia grande caminho para a vitória. À esquerda, a vida daqueles que não renunciaram em tempo de ventos adversos não está fácil. Marcelo lá vai correndo numa pista autónoma.

Em matéria de presidenciais, o PS vive numa esquizofrenia. Não apoia nenhum dos candidatos, mas o partido divide-se entre Maria de Belém e António Sampaio da Nóvoa. Um e outro estarão no terreno, procurando atrair recursos das federações distritais do partido, sem os quais será difícil colocar uma caravana a circular pelo país real. Aí Maria de Belém movimentar-se-á melhor, beneficiando de uma experiência partidária que o ex-reitor da Universidade de Lisboa não tem. E isso provocará inevitavelmente (ainda mais) cisões entre os socialistas. Qualquer que seja o desfecho do atual ziguezaguear partidário, nenhum deles capitalizará muitos benefícios.

Na primeira entrevista televisiva, Maria de Belém tentou até ao limite contornar a insistente pergunta de Judite Sousa sobre o que faria perante o atual impasse quanto à formação do Governo. De uma candidata que joga trunfos ao centro, a (não) resposta apresentada era previsível. Mas não a beneficia. Sampaio da Nóvoa, para quem o terreno à direita é hostil, tenta surfar esta onda noticiosa, declarando que, "se estivesse no lugar do presidente da República, obviamente aceitaria" um Governo de coligação à esquerda. A escolha do advérbio de modo, de carga ideológica, não terá sido por acaso. O candidato independente aposta neste cenário político, ainda que o afastamento oficial do PS e do PCP da sua candidatura não lhe permita a identificação que desejaria.

Mais solto das movimentações parlamentares, até porque as relações com Passos Coelho e Paulo Portas são apenas de conveniência, Marcelo Rebelo de Sousa está livre para fazer o que quer. Por enquanto. A apresentação da candidatura fez-se no tempo certo; a despedida da TVI, em pleno horário nobre, decorreu no registo em que Marcelo mais capitaliza, o da afetividade; e a notícia de que Rui Rio não entraria na corrida a Belém não poderia ser melhor. Rebelo de Sousa corre sozinho numa pista absolutamente favorável para si. Conseguiu, com enorme mestria, eliminar dois pesos pesados do seu partido que teriam grande vontade de disputar Belém. Pedro Santana Lopes e Rui Rio afastaram-se desta corrida invocando argumentos estritamente políticos, mas todos sabem que a variável que mais pesou nessas decisões foi MRS. Ontem Jardim também capitulou.

No entanto, como as legislativas bem demonstraram, os resultados não estão garantidos para ninguém. Nas próximas semanas, muito poderá acontecer no país político e as eventuais mudanças terão muita influência nas eleições presidenciais. Hoje, mais do que nunca, percebemos a importância da Presidência da República. Em momentos decisivos como este, um PR deve liderar os processos políticos. O que não tem acontecido. Quase duas semanas após as legislativas, Cavaco Silva apenas encontrou tempo para reunir com Pedro Passos Coelho e, passados vários dias, com António Costa. O apelo ao diálogo interpartidário, que foi o leitmotiv deste seu mandato, teve aqui o seu pior exemplo. E isso fez mergulhar Portugal numa deriva política cujas consequências ainda estão por apurar.

Se na campanha para as legislativas os líderes partidários passaram ao lado dos cenários políticos que poderiam construir em período pós-eleitoral, na próxima campanha é preciso gerar uma discussão de fundo sobre os poderes do PR e sobre o modo como os candidatos pensam usá-los. Cada um de nós começa a perceber que uma campanha eleitoral não deve ser um tempo de festas, romarias e jantaradas. Há um país para governar. E isso é algo demasiado sério para passar ao lado dos candidatos de tão entretidos que estão em promover uma campanha alegre. Num país demasiado entristecido com os políticos que temos.