Opinião

A força de Marcelo

Marcelo Rebelo de Sousa é um presidente da República diferente: mais hábil no xadrez político, mais espontâneo nos afetos, mais eficaz nos discursos e nos gestos, mais estratégico na gestão de uma agenda que agora se sente menos protocolar. Convém não perder de vista que, embora a popularidade de Marcelo se construa na relação com o povo, tudo tem tido outra amplitude graças à intensa cobertura noticiosa de que é alvo este PR, feita sempre por um ângulo favorável. Eis aqui um presidente em pleno estado de graça. E isso deve-se, em grande parte, aos média que o seguem por todo o lado.

Na semana em que se assinalaram dois anos após a eleição presidencial, ficou a saber-se que, neste tempo, Marcelo Rebelo de Sousa somou 177 horas, sete minutos e 48 segundos de tempo noticioso nos canais generalistas portuguesas. Neste cálculo da Marktest, faltam os canais do cabo, a rádio, os jornais e os sites dos diferentes órgãos de informação, o que significa que a sua projeção mediática é verdadeiramente avassaladora. Dez anos antes, em 2007, o então presidente Cavaco Silva havia conquistado 26 horas de notícias. Marcelo é um caso ímpar. Por várias razões.

Não há dúvidas de que os jornalistas portugueses, principalmente os que acompanham os assuntos da Presidência da República, gostam do atual titular do cargo. Porque este lhes presta muita atenção, sabe adaptar os seus ritmos àquilo que os repórteres necessitam, comenta a atualidade como nenhum outro político e cultiva uma proximidade cúmplice com as equipas de reportagem que o acompanham. Tudo isso é apreciado nas redações. Essa fluidez na comunicação com os média é também uma característica reconhecida aos assessores que se ocupam desta área em Belém. Analisando todos os artigos publicados na Imprensa portuguesa, dou conta de que nos jornais diários Marcelo Rebelo de Sousa torna-se notícia sobretudo através da participação em eventos e aí fala daquilo que quer, ora em continuidade com a visita que efetua, ora em clara disrupção com aquilo que é o mote de determinada deslocação. Nota-se, em cada artigo, que o presidente da República marca o ângulo noticioso, ainda que possa haver uma certa ilusão de que os média controlam o modo como mediatizam a agenda do PR. Não controlam. Ao fim de semana, o "Expresso" ensaia regularmente outra lógica mediática. Por interferência direta de Marcelo ou por ação de jornalistas que cultivam fontes bem informadas dentro do Palácio de Belém, este semanário vem publicando, desde o momento da sua tomada de posse, notícias que, nem sempre tendo o presidente da República como fonte direta, falam daquilo que é o pensamento estratégico da Presidência. Que, por vezes, pode entrar em colisão com o Governo. Ou com a Oposição. Conforme as vontades das fontes de informação. E isso também não é por acaso. E não desagradará à Presidência, dada a continuidade desta opção editorial.

Acrescente-se que esta colossal cobertura mediática também beneficia de um contexto político particular. Com efeito, Portugal tem um Governo minoritário que é sustentado por partidos em equilíbrio precário, o principal partido da Oposição mergulhou nos últimos tempos numa enorme crise interna cuja eleição de um novo líder ainda não foi capaz de neutralizar e, deve reconhecer-se, o primeiro-ministro tem deixado Marcelo Rebelo de Sousa ser o que ele ambiciona ser: o centro da vida política portuguesa. Porque tanto o PR como o PM sabem que precisam muito um do outro para continuar o seu trabalho com alguma estabilidade. Marcelo não teria sido o que foi nestes dois anos se em S. Bento estivesse Passos Coelho. Costa teria tido outros problemas se Belém fosse ocupado por outro inquilino. Qualquer um deles sabe muito bem disso. Por isso, ninguém tem esticado (muito) a corda.

Os próximos dois anos não serão, decerto, um espelho deste passado recente. Porque os partidos vão endurecer posições e isso dificultará a ação do PR. Mas há aqui duas variáveis que permanecerão imutáveis: a sua proximidade ao povo, principalmente em momentos de tragédia; e a cumplicidade com os média. Porque o que se mostra é mais importante do que aquilo que se faz.

*PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO