Opinião

A Igreja acolhe os divorciados?

A Igreja acolhe os divorciados?

Teoricamente, a Igreja Católica está disponível para acolher toda a gente, mas nem sempre se relaciona com todos da mesma forma. Em relação aos divorciados, aos recasados ou àqueles que vivem uniões de facto, a atitude tem oscilado entre o desprezo e a piedade. Nestes últimos tempos, houve avanços no sentido da integração daqueles que querem viver ativamente o catolicismo, mas o passo é vagaroso. E, a este ritmo, a religião católica vai perdendo muitos fiéis. Que deixam de acreditar.

Era um documento esperado com muita expectativa, este da exortação apostólica "Amoris Laetitia" (Alegria do amor), agora divulgada. Depois de sínodos muito mediatizados, de debates musculados e de críticas inéditas ao Papa, é divulgado um texto que não abriu polémica, nem reabriu acesas discussões. Que pena! Os reformistas, defensores de uma maior adaptação dos ensinamentos teológicos à sociedade contemporânea, esperavam mais deste texto. Os conservadores, hostis a qualquer relativização da doutrina, olharam receosos para os interstícios das frases, mas descansaram no espírito da letra. Reconhece-se que é preciso avançar no sentido de aceitar a reconfiguração das famílias, mas, por enquanto, nada se alterou, de facto.

Nas 260 páginas deste importantíssimo documento, escreve-se que ninguém "pode ser condenado para sempre", mas continua-se, por exemplo, a vedar o acesso à comunhão a todos os que colocaram um ponto final ao seu matrimónio. E eis a contradição que custa a aceitar: a Igreja diz-lhes que podem entrar em sua casa, mas não os convida para a refeição, apenas acessível a uns quantos eleitos, de castidade muitas vezes algo duvidosa. É verdade que, numa discreta nota de rodapé, afirma-se que "em alguns casos", os pastores podem ajudar os tresmalhados e "isso pode incluir a ajuda dos sacramentos". É pouco. A Igreja deveria deixar este Papa avançar mais. Os setores mais convencionais nem querem ouvir falar em mudanças e lá vão entrincheirando as suas bolorentas convicções. Esta é uma das causas do profundo envelhecimento dos templos e da colossal substração de fiéis que registam.

De uma forma geral, os média não tiveram uma interpretação negativa desta exortação apostólica. Optando por ouvir interlocutores mais alinhados com o texto, os jornalistas foram acumulando posições favoráveis. E mesmo aqueles que não se revêm aí optaram pela leitura do copo meio cheio. Os mais retrógrados rejubilaram com a imutabilidade da doutrina católica que este documento parece assegurar; os mais otimistas mostraram-se convencidos de que este é um ponto de viragem em relação aos divorciados. Ambos podem ter razão, embora cada uma das partes fique a meio caminho. Porque o documento pinta-se com tonalidades indefinidas.

Seria de uma enorme injustiça acusar o Papa Francisco de falta de coragem para se avançar mais no sentido de um acolhimento pleno de todos. Este Papa vem acumulando sucessivos gestos de integração de famílias que se vão reconfigurando, aceitando, sem preconceitos, aqueles que refizeram caminhos de vida enquanto casais. Todavia, quem se senta na cadeira de Pedro não comanda uma Igreja que se multiplica em poderes cujos tentáculos crescem frequentemente em zonas sombrias, mas muito influentes. Jorge Mario Bergoglio conhecerá muito bem os alçapões que a sua Igreja (lhe) vai colocando à frente dos seus pés e lá se vai desviando, evidenciando um assinalável desprendimento por dogmas hostis a homens e mulheres de (boa) fé. Todos sabemos que ninguém conseguirá fazer evoluir de um momento para o outro uma Igreja resistente à mudança, mas há que continuar a fazer caminho...

Perante esta exortação apostólica, pouco importa se a consideramos progressista ou conservadora. Interessa, antes, continuar a exigir à Igreja que saiba ler o Mundo atual e que se preocupe em permanência com aqueles que deixaram de encontrar o seu lugar dentro dos templos. A religião católica não pode ser um reduto de velhos e de pessoas fechadas em retrógradas convicções. Há muito quem toque o sino a rebate. Parafraseando Mateus, "aquele que tem ouvidos para ouvir que oiça".

PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO

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