Opinião

A incompreensível greve dos motoristas

A incompreensível greve dos motoristas

Ao anunciarem uma greve a partir do dia 12 de agosto por tempo indeterminado, os sindicatos dos motoristas de matérias perigosas e de mercadorias vão arruinar as férias à maior parte dos portugueses e a quem nos visita bem como bloquear serviços fundamentais para o normal funcionamento da sociedade.

Neste tempo, seria bom anteciparem o que irá acontecer nesses dias que serão fortemente mediatizados: uma reação negativa de um país que não compreende formas tão radicais de luta laboral.

Em qualquer setor, uma greve nunca é inócua. Provoca uma enorme dor de cabeça aos patrões ou à respetiva tutela e desarranja a vida dos cidadãos. E isso tem sempre uma enorme visibilidade mediática que os sindicatos sabem explorar com mestria. São essas as regras e cada um de nós, aqui e ali, vai arranjando formas de reorganizar a sua vida para fazer face às consequências de certas paralisações. Acontece que esta greve dos motoristas tem apresentado contornos diferentes. E perigosos.

Por altura da Páscoa, fez-se o primeiro ensaio de uma greve à escala nacional. E percebeu-se que um grupo profissional relativamente pequeno pode paralisar o país. Com consequências imprevisíveis. Essa constatação poderia responsabilizar mais os sindicatos quanto às formas de pressão a usar. Parece que assim não foi. Com esse poder em mãos, os motoristas vão procurar bloquear as férias dos portugueses, embaraçar a estadia dos estrangeiros no nosso país e dificultar o funcionamento de serviços vitais para o país. Por tempo indeterminado, dizem. E isso é inaceitável.

Devo dizer que compreendo as queixas dos motoristas. Desenvolvendo um trabalho exigente, seria justo auferirem melhores salários e contarem com outras condições de trabalho. Todavia, ao exacerbarem as formas de luta, os sindicatos perdem a solidariedade dos portugueses em relação às suas lutas laborais. Cada vez que ouvimos uma notícia sobre a greve de agosto, ficamos com a sensação de que se prepara um ataque de amplitude indefinida ao nosso quotidiano. E isso é algo que qualquer sindicato deveria procurar neutralizar imediatamente. Não é isso que tem acontecido.

Faltam duas semanas para o início da greve. Tempo suficiente para os sindicatos acautelarem os efeitos da paralisação que anunciaram. É preciso que estejam conscientes de que, daqui a 15 dias, os média noticiosos centrarão as suas agendas naquilo que os motoristas vão fazer. Para além de patrões e governantes, os jornalistas vão procurar ouvir os portugueses e os turistas que nos visitam. E as reações vão ser brutais. Contra os motoristas.

*Professora Associada com Agregação da Universidade do Minho