Opinião

A jararaca anda perdida

A jararaca anda perdida

É do domínio do inverosímil a nomeação de Lula da Silva como ministro da Casa Civil. Mais inimaginável é a conversa telefónica que a Polícia Federal intercetou anteontem entre ele e Dilma Rousseff que lhe disse que iria enviar antecipadamente o termo de posse para utilizar "em caso de necessidade". Os média brasileiros abriram uma frente coletiva de denúncia de uma política que está a definhar e a fazer submergir o país num buraco sem fundo. Os brasileiros também invadiram as ruas com manifestações ruidosas. Dilma, Lula e o PT conseguirão sobreviver a tudo isto?

Por estes dias, pertence à revista "Veja" a capa mais violenta contra o atual sistema político. Em fundo preto, sobressai o rosto enfurecido de um Lula que exibe na cabeça várias serpentes venenosas, sob o título "O desespero da jararaca". A revista brasileira que mais se tem salientado por um acérrimo contrapoder aos governos do Partido dos Trabalhadores retoma, com outro significado, as palavras do ex-presidente, proferidas a 4 de março na sede do PT de São Paulo, horas depois de ter deposto no âmbito do processo Lava Jato, que investiga o escândalo de corrupção na Petrobras. "Se tentaram matar a jararaca, não bateram na cabeça, bateram no rabo", disse, na altura, o ex-presidente do Brasil. A realidade poderá contradizer Lula, mas a verdade é que esta imprevisível serpente está a lutar pela sobrevivência. Talvez não usando as melhores armas, mas o passado recente tem demonstrado que Dilma e Lula reúnem uma colossal capacidade para contornar aquilo que se consideram intransponíveis obstáculos num país que se asfixia numa preocupante crise económica.

Na véspera da segunda volta das eleições presidenciais de 26 de outubro de 2014, a revista "Veja" fez sair um número especial em que colocava lado a lado os rostos de Dilma Rousseff e de Lula da Silva, apenas separados por um título que garantia, em letras vermelhas, que "Eles sabiam tudo", escrevendo-se ainda que "o doleiro Alberto Youssef, caixa do esquema de corrupção na Pretrobras revelou à Polícia Federal e ao Ministério Público que Dilma e Lula tinham conhecimento das tenebrosas transações na estatal". Esta capa-bomba transformou-se rapidamente numa notícia global, mas a publicação que vinha na sequência de uma forte noticiabilidade em torno da operação Lava Jato não teve consequências substanciais no ato eleitoral. A presidente foi reeleita sem grande dificuldade. Aparentemente os brasileiros não atribuíram grande significado à investigação judicial e às denúncias que os jornalistas refletiam.

Acontece, no entanto, que a realidade, que há ano e meio já era crítica, agravou-se. Muitíssimo. Muita gente foi detida, nomeadamente políticos, e o cerco a Dilma e a Lula apertou-se. O Brasil também deu passos em direção a um abismo político, económico e social. A nação emergente que se integrava nos chamados BRIC, ao lado da Rússia, Índia e China, é hoje um pálido reflexo de um país que parecia estar a despontar para o progresso. Foi uma falsa partida. O retrocesso fez-se a alta velocidade. E isso é assustador.

No atual contexto, multiplicam-se perguntas. Dilma poderá evitar uma destituição? O Palácio do Planalto será uma fortaleza intransponível para a justiça? O PT sobreviverá sem Dilma e sem Lula? Os políticos do poder estarão imunes à corrupção? O país sairá da crise em que se afunda?

Olhando o Brasil deste lado do Atlântico através do discurso noticioso que aí se produz, a nação parece um caso perdido. Ontem o jornal "Folha de São Paulo" colocava em grande destaque uma foto de uma Dilma Roussef em pânico e um título onde se lia que a "Presidente atuou para evitar a prisão de Lula". E eis como dois políticos que, em tempos refundaram o Brasil, se tolhem no próprio labirinto que foram tecendo. Percebemos que por vontade própria não abandonarão o poder; também os média não revelam força suficiente para os apear do Palácio do Planalto. Resta os brasileiros e a poderosa rua. O povo será sempre a força que mais ordena.