Opinião

A longa espera da coligação PSD/CDS

A longa espera da coligação PSD/CDS

Fontes não identificadas garantiram o anúncio para as primeiras semanas de janeiro, depois adiou-se para fevereiro, agora fala-se já em finais de março. O certo é que a renovação da coligação PSD/CDS tarda e isso encerra um enorme significado político. Os partidos que sustentam o Governo têm um problema. Todos já perceberam isso. Por um lado, é difícil encontrar uma plataforma de entendimento; por outro, também é complicado concorrer separadamente a eleições, porque há um passado comum para assumir e um futuro que poderá ser construído (ainda) a dois. O CDS já fez saber que está pronto para fazer um caminho com os sociais- democratas, mas estes não estão certos de que isso seja a melhor solução. Dizem que é preciso esperar por sondagens internas que mostrem as (des)vantagens de uma coligação pré-eleitoral. Significa isto que o PSD busca nos centristas um companheiro que lhe renda votos e não um parceiro para partilhar a ação política. Toda esta legislatura testemunhou, aliás, que, no Governo, o PSD aguenta o CDS como um mal menor. Paulo Portas percebe bem isso, embora construa um discurso para fazer acreditar que se trata de uma parceria de sucesso. Não o é. Longe disso.

Esta semana, noticiou-se que Pedro Passos Coelho faz este compasso de espera até à conclusão do Documento de Estratégia Orçamental (DEO) para perceber se os dois partidos que sustentam o Governo são capazes de se entenderem quanto às prioridades do país para os próximos anos. O passado recente mostrou já os estragos que poderão provocar as linhas vermelhas traçadas por Paulo Portas. Não são suficientemente robustas para impor políticas, mas revelam-se razoavelmente vigorosas para originar um incómodo ruído mediático. Passos Coelho conhece bem o modo como os centristas se movimentam nos bastidores do campo mediático para criar mossa à cúpula do PSD. Por isso, gostaria muito de trilhar os próximos quatros anos a solo. Isto, é claro, se houvesse condições para formar Governo.

Na atual conjuntura, PSD e CDS juntos ficam longe de uma maioria absoluta, frente a um PS mais agregador de votos ao centro e à esquerda. É claro que à nossa frente se ergue uma enorme incógnita chamada Grécia. Um triunfo das pretensões do Syriza ditará, a curto prazo, aquilo que se poderá passar em vários países. Por exemplo, em Espanha onde o Podemos tem vindo a ultrapassar um renovado PSOE e um PP agora mais apostado no discurso do crescimento em detrimento da necessidade de medidas que contrariem uma crise que tem vindo a asfixiar o país vizinho. E isso poderá ter um incontrolável efeito de contágio em Portugal, exatamente em período pré-eleitoral, o mais sensível para estruturar tendências de voto. Se o PSD está à espera de sondagens para saber o que fazer, o melhor é desistir já disso. A realidade política é demasiado dinâmica para ser aferida por estudos de opinião.

No pacote negocial que Pedro Passos Coelho terá de gerir com Paulo Portas, há ainda outra variável sensível: o candidato às eleições presidenciais. O primeiro-ministro não gosta de Marcelo Rebelo de Sousa, nem tão pouco aprecia Pedro Santana Lopes. Prefere Rui Rio. Os três gostariam de disputar a corrida, o que provoca um enorme problema aos sociais-democratas que, no entanto, respiraram de alívio esta semana, quando ouviram Santana Lopes reconhecer que a decisão deveria ser arrastada para outubro. Menos um incómodo para o PSD na campanha eleitoral para as legislativas. No entanto, os problemas com a Presidência da República não estão neutralizados, porque se pressente que centristas poderão apoiar um candidato diferente daquele que será apresentado pelo parceiro de uma eventual coligação governamental. Ora, se esse apoio incidir num militante social-democrata, fácil será antever as dificuldades que surgirão durante uma campanha eleitoral presidencial e, pior ainda, se esse candidato conquistar Belém e a coligação continuar em S. Bento.

Não está fácil a vida de Pedro Passos Coelho e de Paulo Portas. O primeiro está a adiar a resolução de um problema e isso costuma multiplicar obstáculos; o segundo ficará com o ónus de o seu partido representar um peso que o PSD se vê obrigado a arrastar e isso nunca augura uma coabitação pacífica. Ainda estão a tempo de neutralizar estas contrariedades, mas não podem esperar muito mais...