Opinião

A palavra do ano é...

A palavra do ano é...

Há precisamente dez anos que a Porto Editora fixa a palavra do ano. Ao longo de uma década, a escolha recaiu em vocábulos que refletem preocupações coletivas e que, consequentemente, vão sendo repetidas através dos meios de Comunicação Social. A palavra de 2018 será conhecida amanhã durante um debate sobre este tema que decorrerá, a partir das 17 horas, na Biblioteca Municipal Almeida Garrett, no Porto. Qual será a escolha dos portugueses?

Vejamos as palavras a concurso e as minhas impressões sobre cada uma. Assédio: não é uma candidata forte, porque, por cá, o movimento Me Too não encontrou grande expressividade. Enfermeiro: é uma opção robusta devido à união da classe em momentos de adversidade laboral e ao impacto que uma greve cirúrgica tem tido na opinião pública. Especulação: será sempre uma escolha das grandes cidades onde a especulação imobiliária empurra a população que trabalha para as periferias. Extremismo: é uma preocupação daqueles que olham o país a partir do Mundo onde a intolerância e o extremismo se sentem como ameaças reais. Paiol: eis uma escolha daqueles que acompanham a atualidade política e olham o caso de Tancos como um tempo em que o regime esteve em causa. Populismo: não o sentimos muito dentro de fronteiras, mas é cada vez mais uma tendência concretizada em várias geografias. Privacidade: num ambiente social demasiado estruturado pelo universo digital, principalmente pelas redes sociais, este tema será sempre atual. Professor: é uma palavra poderosa pelo número de docentes votantes e pelas sucessivas reivindicações que a classe fez ao longo de 2018 e que passam agora para 2019. Sexismo: a discriminação de pessoas ou grupos é uma realidade cada vez mais denunciada, nomeadamente pelas mulheres para quem a igualdade de género continua a ser somente um desejo. Toupeira: para quem segue o submundo do futebol, a palavra é bem conhecida. É deste leque de escolhas que sairá amanhã a palavra do ano, sendo certamente imprevisível a votação dos portugueses.

Recordemos as escolhas dos últimos anos: incêndios (2017), geringonça (2016), refugiado (2015), corrupção (2014), bombeiro (2013), entroikado (2012), austeridade (2011), vuvuzela (2010) e esmiuçar (2009). O que têm em comum estas palavras? Um uso corrente e uma presença regular nos meios de Comunicação Social, havendo uma espécie de dualidade estrutural entre o social e os média que são estruturantes um para o outro e, simultaneamente, estruturados um pelo outro. No primeiro ano deste concurso, os Gato Fedorento deram o mote para a escolha, no ano seguinte o Mundial de Futebol influenciou decisivamente a votação e em 2011 o peso da crise esmagou as restantes opções para dar visibilidade a uma palavra que passou a ser comum no quotidiano de uma nação.

Em 2018, sobressaem três grupos: classes profissionais em luta (enfermeiros e professores); problemas de género (assédio e sexismo), tendências globais (populismo, extremismo e especulação). Penso que será daqui que sairá a palavra do ano, mas poderá haver surpresas...

Pela minha parte, o meu voto foi para a palavra populismo que, em 2018, ganhou perigosos contornos. Na Europa, a Itália abriu portas a uma coligação de extrema-direita que tem provocado intensas dores de cabeça à União Europeia; na Polónia, na Hungria e na Áustria esta tendência parece avançar de forma firme; e do outro lado do Atlântico, as presidências do Brasil e dos Estados Unidos colocam-nos num novo trilho, para muitos algo temeroso. É, pois, difícil o futuro passar à margem deste vocábulo. No entanto, as palavras mais fortes serão professor e enfermeiro. Estas classes estiveram em destaque em 2018 e, decerto, será daqui que sairá a palavra do ano. Qual será a vencedora?

Professora Associada com Agregação da Universidade do Minho

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